sábado, 14 de fevereiro de 2026

As Miniaturas - Andréa del Fuego

Minha Opinião
Encontrei este livro quase por acaso no Sesc, procurando por outra obra da autora (A Pediatra), e acabei devorando-o em uma única manhã. A leitura é impressionantemente fluida; a escrita da Andréa del Fuego nos carrega com uma leveza que contrasta com a estranheza da trama. Confesso que fechei o livro sem ter certeza se entendi tudo racionalmente, mas percebi que a obra não pede explicação lógica, ela pede entrega.
O livro opera na atmosfera do "Oneiro", como se fosse um sonho, ou o inconsciente, um lugar onde ninguém tem o controle e onde somos guiados por forças misteriosas. O que mais me prendeu, no entanto, foi a dinâmica familiar disfuncional: a mãe e o filho vivem uma relação de ambivalência, querendo partir mas precisando ficar, "se atravessando" o tempo todo. É uma convivência onde todos parecem fingir que não veem a realidade para conseguirem permanecer juntos. É uma obra onírica, misteriosa e que nos deixa com a sensação de termos acordado de um sonho vívido e estranho.

Sinopse
Em As Miniaturas, Andréa del Fuego constrói um romance que desafia a realidade concreta. A trama se passa em um edifício misterioso, próximo ao Oneiro (o centro dos sonhos), onde funcionários trabalham para reduzir o mundo a maquetes e miniaturas. Nesse cenário onde as leis da física e da vida cotidiana parecem suspensas, acompanhamos personagens que lidam com a fronteira tênue entre a vigília, o sono e a morte. É uma narrativa sobre o desejo de controle sobre a vida e a inevitabilidade de sermos guiados pelo nosso próprio inconsciente.

Uma Noite na Livraria Morisaki - Satoshi Yagisawa


Minha Opinião
Ler literatura japonesa contemporânea, especialmente deste gênero, é entrar em uma frequência diferente: há uma inocência e um respeito onipresentes que marcam o tom da narrativa. Uma Noite na Livraria Morisaki é um livro "fofo", sem sobressaltos, sem grandes dramas ou emoções desmedidas. Ele discorre sobre a beleza sutil da vida normal.
Para mim, o ponto alto foi observar a cultura japonesa nessas entrelinhas: a educação extrema, a quantidade de pedidos de desculpas e, principalmente, a dificuldade dos personagens em verbalizar sentimentos. Há um cuidado imenso em não dizer algo que magoe ou incomode o outro, o que cria diálogos contidos, mas cheios de significado. Confesso que gostei mais do primeiro livro (Meus Dias na Livraria Morisaki), que achei mais envolvente, mas esta continuação cumpre bem o papel de ser uma leitura leve, ideal para passar o tempo e desopilar de leituras mais pesadas.

Sinopse
Nesta sequência de Meus Dias na Livraria Morisaki, retornamos ao famoso bairro de livrarias de Tóquio, Jinbōchō. Takako, que encontrou refúgio na livraria do tio Satoru no primeiro livro, agora segue sua vida, mas continua orbitando aquele universo de papel e tinta. Desta vez, a trama se aprofunda na relação entre o tio Satoru e sua esposa, Momoko, revelando mais sobre o passado misterioso dela e as dinâmicas desse casal peculiar. Entre cafés, passeios pelas ruas cheias de livros usados e conversas silenciosas, a obra explora os laços familiares, o reencontro consigo mesmo e o conforto que só uma livraria antiga pode oferecer.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Circe - Madeline Miller


Minha opinião (contém spoiler)

A leitura de Circe foi uma grata surpresa que me capturou pela escrita fluida e encantadora de Madeline Miller. Mas o que realmente me prendeu não foi apenas a mitologia em si, mas a coragem da autora em despir os deuses de sua glória habitual. O que vemos no Olimpo não é sabedoria, é um narcisismo puro e cru. Os deuses são retratados como figuras egocêntricas, infantis e sem escrúpulos, para quem a vida dos outros (mortais ou menores) não tem sentido algum além de servir aos seus caprichos. É fascinante ver essa "família disfuncional" divina operar sob uma lógica de poder tóxico, onde não há espaço para afeto ou empatia.

Contrapondo-se a esse ruído do Olimpo, temos o exílio. Quando Circe é banida para a ilha de Eana, poderíamos esperar uma narrativa monótona de solidão. No entanto, acontece o oposto: a ilha pulsa vida. É no isolamento que a história realmente acontece, porque é ali que Circe deixa de ser uma ninfa submissa para se tornar sujeito de sua própria vida.
A ilha funciona quase como um espaço terapêutico de elaboração: é ali, entre as plantas, os animais e a feitiçaria (que ela descobre pelo esforço, não por dádiva), que ela constrói sua identidade. A cada visita que recebe — de Odisseu a Dédalo —, ela refina seu olhar sobre o mundo, deixando de ser a vítima rejeitada para ser a Feiticeira que impõe limites.

O ponto alto, sem dúvida, é o desfecho. Diferente da mitologia clássica, onde a meta final é sempre a apoteose e a imortalidade, Madeline Miller nos entrega um final subversivo e profundamente bonito: a escolha pela mortalidade.
Circe percebe que a eternidade dos deuses é estática, fria e, em última análise, vazia. Ao escolher envelhecer, sangrar e morrer, ela está, na verdade, escolhendo viver. Ela entende que é a finitude que dá contorno e sentido à experiência e ao amor. É uma conclusão filosófica poderosa: a de que a beleza da vida reside justamente no fato de que ela acaba.

Circe não é apenas uma releitura mitológica; é um estudo sobre a formação de uma mulher que precisou ser expulsa do "paraíso" para encontrar sua própria humanidade. Uma obra densa, que entrelaça o fantástico com questões psíquicas reais sobre rejeição, autonomia e a coragem de escrever o próprio destino, mesmo quando os deuses dizem o contrário.

Sinopse
Na casa de Hélio, o deus do Sol e o mais poderoso dos titãs, nasce Circe. Uma criança estranha, sem os poderes divinos óbvios de seu pai e desprezada por sua mãe, ela é vista como uma decepção no salão dourado dos deuses. Isolada e buscando aceitação, Circe acaba descobrindo um poder proibido e perigoso: a feitiçaria. Quando seus dons ameaçam a ordem estabelecida, Zeus a bane para uma ilha deserta, Eana.
Mas o exílio não é o fim; é o começo. Ali, Circe aprimora suas artes ocultas, doma feras selvagens e cruza o caminho das figuras mais famosas da mitologia: o Minotauro, Dédalo, a furiosa Medeia e, é claro, o astuto Odisseu. Mas o maior desafio de Circe não são os monstros ou os deuses vingativos que tentam destruí-la, e sim a batalha interna para descobrir a quem ela pertence: ao mundo dos deuses, de onde veio, ou ao mundo dos mortais, que ela aprendeu a amar profundamente.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada - Carolina Maria de Jesus


Minha Opinião
Já tinha ouvido falar dessa obra há tempos, mas acredito que só hoje, aos 40 anos, consegui ter a vivência necessária para apreciá-la. Quem acompanha minhas leituras percebe a mudança: aos 20, eu buscava romances juvenis, paixões intensas e fugas da realidade; a dureza da vida não me interessava. Hoje, meu olhar é outro. Não encaro isso como uma "evolução" — pois acredito que toda fase e todo gosto têm sua importância —, mas como um novo momento que me permite compreender a profundidade dolorosa de Quarto de Despejo.
O livro tem um ritmo que pode parecer repetitivo, e é exatamente aí que mora a sua força. A narrativa nos faz sentir na pele a falta de perspectiva que mata, aquela sensação de que o amanhã será igual ao hoje. Estamos acostumados, na ficção, a reviravoltas e meritocracia, mas aqui a fome é a protagonista constante. Carolina nos mostra que, mesmo trabalhando até a exaustão física e carregando pesos sobre-humanos, a pobreza teima em não ir embora. A inteligência brilhante da autora e seus sonhos convivem com a miséria da favela, provando que o esforço individual muitas vezes não basta para romper o ciclo da desigualdade. É uma história fortíssima, que precisa ser lida e, acima de tudo, compreendida.

Sinopse
Publicado originalmente em 1960, Quarto de Despejo reproduz o diário real de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel, negra, mãe solteira e moradora da extinta favela do Canindé, em São Paulo. Com uma linguagem crua e poética, que preserva a ortografia e a gramática originais da autora, a obra relata o cotidiano de luta pela sobrevivência, a busca incessante por comida para os três filhos e a invisibilidade social. Mais do que um relato autobiográfico, é um documento histórico e sociológico que denuncia o abismo entre a cidade rica e a periferia esquecida.

fevereiro começa aqui Tese sobre uma domesticação - Camila Sosa Villada


Minha opinião: Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.
Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.
É uma ​Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.

​Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.

​É uma leitura instigante e difícil em alguns momentos, pois a autora não romantiza a realidade. Mas, acima de tudo, é uma obra sobre a humanidade compartilhada. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse

​Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse
Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guerra do Velho - John Scalzi


Mnha opinião: A Guerra do Velho (Vol. 1)
Como fã de ficção científica, busco sempre autores capazes de criar mundos novos e situações inesperadas, e John Scalzi entrega exatamente isso neste primeiro volume. A premissa de idosos de 75 anos se alistando para ganhar corpos novos e lutar no espaço é fascinante, e a construção desse universo me prendeu bastante, especialmente as dinâmicas das batalhas e a tecnologia de transferência de consciência.
O protagonista, John Perry, segue um estilo bem clichê — aquele tipo "Rambo" que, mesmo sem experiência prévia, parece saber de tudo, supera todos os obstáculos e sempre vence. Mas isso não chega a atrapalhar porque ele é extremamente carismático e narra a história de um jeito que prende a atenção. O ponto baixo para mim foi a introdução do romance com a "cópia" da esposa falecida dele. Achei desnecessário; a trama funcionava muito bem só com a adrenalina da guerra e a exploração espacial, sem precisar desse drama afetivo no meio. Ainda assim, é uma ficção científica muito boa e sólida, que me deixou com vontade de seguir para os próximos livros, mesmo não sendo a melhor que já li na vida.

Sinopse
Em A Guerra do Velho, a humanidade finalmente chegou às estrelas, mas o espaço é um lugar hostil e disputado. Para defender as colônias humanas, a Terra recruta soldados com uma condição peculiar: eles devem ter 75 anos ou mais. Em troca de sua vida na Terra — para onde nunca mais poderão voltar —, esses idosos recebem corpos rejuvenescidos, geneticamente modificados e prontos para a guerra. John Perry é um desses recrutas que, após o luto e a velhice, decide apostar tudo nessa nova chance de viver, descobrindo que a guerra intergaláctica é muito mais estranha e brutal do que ele imaginava.

Ensaios de Despedida de Elisama Santos


Minha opinião: Iniciei a leitura de "Ensaios de Despedida", de Elisama Santos, com uma expectativa altíssima, vinda da experiência forte que tive com "Mesmo Rio", obra anterior da autora. Aqui, encontrei uma estrutura narrativa diferente, mas igualmente impactante: o livro é construído a partir de cartas de uma mãe para uma filha — cartas que a filha não lê, mas que servem como a única via possível para essa mulher elaborar o que sente.
É uma leitura intensa sobre as dualidades femininas: a vontade de partir versus a obrigação de ficar; o desejo de viver a própria vida versus a renúncia para que os outros vivam. A autora retrata com crueza como nos negamos como pessoas para caber no papel de cuidadora e como, muitas vezes, não conseguimos sair desse lugar. O livro me provocou uma reflexão profunda sobre o que fazemos no piloto automático: como o lugar do cuidado acaba ficando "marcado" em nós, mulheres, como uma segunda pele, nos aprisionando em funções que nos apagam, mesmo quando gritamos internamente por liberdade.

Sinopse
Em Ensaios de Despedida, Elisama Santos apresenta a intimidade de uma mulher que, prestes a completar 50 anos, decide rever sua trajetória através de cartas escritas para a filha e para a mãe já falecida. Através dessa correspondência unilateral, ela confessa os segredos de um casamento desgastado, a solidão acompanhada e o peso insustentável de ter vivido sempre em função das necessidades alheias. É um romance sobre o direito de mudar de rota, a complexidade das relações familiares e o custo emocional de ser a base de sustentação de todos, menos de si mesma.

Suíte Tóquio de Giovana Madalosso


Minha opinião: A leitura de "Suíte Tóquio", de Giovana Madalosso, foi uma experiência que me prendeu do início ao fim, especialmente pela estrutura narrativa que alterna entre as vozes das personagens, criando uma tensão constante. Inicialmente, a trama me despertou sentimentos ambíguos e muita raiva, não apenas pelo sequestro da criança em si, mas pela postura da mãe, Fernanda, que me pareceu extremamente relapsa. No entanto, ao longo da leitura, fui desconstruindo esse julgamento e entendendo a crítica social por trás dele: Fernanda age exatamente como um "pai tradicional" — ela sustenta a casa, prioriza a carreira e exerce o cuidado à sua maneira. Percebi que ela não seria criticada se fosse um homem desempenhando esse mesmo papel de provedor, o que escancara o peso desproporcional sobre a maternidade.
O livro explora esses papéis invertidos e a complexidade das relações de trabalho doméstico com uma força impressionante. A posição da babá, Maju, é retratada de forma dolorosa: uma mulher que não tem direito a ter vida própria, a ponto de precisar negociar uma folga para tentar engravidar. É chocante ver como o cuidado é mercantilizado e como existem abismos entre "o cuidado que não é cuidado" (a negligência afetiva) e "o cuidado que é cuidado" (o vínculo real, mesmo que em contextos perigosos). Os perigos, os encontros e os desencontros dessa história tornam a obra um estudo fascinante sobre classes sociais, afetos e a invisibilidade de quem cuida.

Sinopse
Em "Suíte Tóquio", uma babá decide levar a criança de quem cuida para um passeio não autorizado, desencadeando uma trama de suspense psicológico e crítica social. Enquanto a funcionária e a menina mergulham em uma jornada imprevisível, a narrativa alterna para o ponto de vista da mãe, uma executiva de televisão imersa em uma crise no casamento e na carreira. O desaparecimento da filha obriga a mãe a confrontar sua própria ausência e as falhas na dinâmica familiar. Giovana Madalosso constrói um thriller doméstico ágil que disseca as relações de poder, a culpa materna e as fronteiras tênues entre afeto e subordinação no Brasil contemporâneo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Os Supridores - José Falero


Minha opinião: Acabei de finalizar "Os Supridores", de José Falero, e a experiência foi intensa, especialmente porque optei pelo audiolivro: o sotaque e a oralidade mantidos ali são maravilhosos e tornam a história muito envolvente. O livro vai muito além da rotina de Pedro e Marques no supermercado; ele escancara a falácia da meritocracia, mostrando a busca brutal pelo financeiro e como, para quem nasce naquela realidade, o esforço não garante a vitória. A violência exposta na obra não é gratuita, ela aparece quase como uma sequência lógica e inevitável desse cenário de exclusão.
O que mais me marcou foi a construção psicológica do Pedro. Tive muita empatia por ele, pois não o vi apenas como um personagem revoltado, mas como alguém extremamente consciente. Ele é um rapaz de inteligência ímpar, com um potencial enorme — arrisco dizer que tem características de superdotação, mas acaba sufocado pelas dificuldades sociais e financeiras. Fica aquela reflexão martelando: imagine se ele tivesse nascido em outro berço? Sobre o desfecho, confesso que não gostei de início porque queria um final feliz para o Pedro, mas racionalmente achei ótimo e interessante. Foi coerente com a realidade dura apresentada e o fato de ele ter escrito a história foi o toque final perfeito. Que história!

Sinopse:
Ambientado na periferia de Porto Alegre, Os Supridores narra a trajetória de Pedro e Marques, dois amigos que trabalham repondo prateleiras em um grande supermercado. Pedro, um jovem de inteligência brilhante e articulação invejável, percebe com clareza cruel que o esforço braçal e a honestidade não serão suficientes para tirá-los da miséria, desmantelando a ilusão da meritocracia.
Cansados da invisibilidade e da exploração, a dupla decide "hackear" o sistema: eles resolvem entrar para o tráfico de drogas, mas aplicando uma lógica empresarial e organizada ao negócio ilícito. Com uma narrativa visceral que preserva a oralidade e o ritmo das ruas, José Falero constrói uma trama envolvente sobre amizade, o desperdício de potenciais intelectuais nas margens da sociedade e a violência como consequência lógica da desigualdade.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"O Som do Rugido da Onça" - Micheliny Verunschk


Minha opinião: Vou ser bem honesta: o começo dessa leitura foi um desafio. Nas primeiras 30 ou 40 páginas, eu me senti perdida, sem entender nada, navegando por vozes que se misturavam e tempos que não pareciam se encaixar. Pensei em desistir, mas persisti, e que bom que fiz isso.
Quando a neblina inicial baixa, o que emerge é uma história de uma tristeza e de uma revolta avassaladoras. O livro conta o destino de Iñe-e e Juri, duas crianças indígenas sequestradas no século XIX pelos cientistas Spix e Martius. Foram arrancadas de sua terra, de sua família e de sua sobrevivência por pura ganância e vaidade científica, levadas para a Europa para serem expostas como "peças de museu", tratadas como coisas, como monstros, como excentricidades.
A autora, Micheliny Verunschk, faz um trabalho genial (e difícil) de costurar a narrativa histórica fria com a "voz da onça", isso mesmo, uma voz ancestral, poética e mítica. No início, essa voz assusta e confunde, mas depois entendemos que ela é a única forma de devolver a humanidade a essas crianças. É a autora transformando o drama absoluto em uma história de resistência.
O que fica no final é a percepção de que, embora os cientistas tenham levado os corpos, eles não conseguiram capturar o espírito. Os povos originários e suas crenças permanecem, ecoam e resistem até hoje, enquanto aqueles que os roubaram viraram pó e esquecimento. Muitas vezes passamos despercebidos por essas histórias, como se não fossem nossas, como se não nos interessassem. Mas interessam. E muito. É uma leitura difícil, que exige paciência, mas que recompensa com uma visão necessária sobre quem somos e sobre as feridas que ainda estão abertas.

Sinopse:
Em 1817, os naturalistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius desembarcam no Brasil com a missão de catalogar a fauna e a flora locais. Ao retornarem para Munique três anos depois, levam consigo não apenas amostras de plantas e animais, mas também duas crianças indígenas: Iñe-e e Juri.
Arrancados de sua terra natal e levados para um ambiente frio e hostil, os dois jovens são transformados em objetos de estudo e curiosidade exótica, tendo suas identidades e humanidade progressivamente apagadas em nome da ciência. Entrelaçando o fato histórico do século XIX com a voz de uma narradora contemporânea que reencontra os vestígios dessas crianças em um museu, Micheliny Verunschk constrói uma narrativa potente sobre desenraizamento, memória colonial e a força mítica daqueles que a história tentou silenciar.

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Biblioteca da Meia-Noite (The Midnight Library), de Matt Haig


Minha opinião: Terminei a leitura de A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig. Sabe aquele filme Efeito Borboleta? O livro traz uma temática parecida, mas um pouco mais leve: a possibilidade de viver várias vidas dependendo das escolhas que fazemos (ou deixamos de fazer).
As primeiras páginas já entregam o jogo: do nada, várias pessoas do passado da protagonista aparecem para lembrá-la das decisões que ela não tomou. É aquele começo que já mostra exatamente para onde a história vai.

Quando ela chega na tal biblioteca e começa a experimentar essas "outras vidas", senti falta de aprofundamento. Tudo é tratado de forma bem superficial. As vidas alternativas passam rápido, sem muita densidade, sem aquele mergulho psicológico real.

Fica claro que é um livro "para vender": uma história redondinha, que prende a atenção, mas que não traz intensidade. É um livro curto, nada denso e muito fácil de ler. As coisas vão se desenrolando e se "consertando" exatamente como a gente espera, sem nada que chame muito a atenção ou surpreenda.

No fim das contas, é como um filme de Sessão da Tarde: aquele que serve para distrair a cabeça num fim de semana, que é gostosinho de acompanhar, mas que não foi feito para trazer grandes reflexões filosóficas. É entretenimento puro e simples.

Sinopse 

Nora Seed é uma mulher de 35 anos cheia de talentos, mas também cheia de arrependimentos. Sentindo-se inútil e sozinha, após ser demitida e perder seu gato, ela decide tirar a própria vida.
No entanto, em vez de morrer, Nora acorda em uma biblioteca infinita, situada entre a vida e a morte. Lá, o tempo para, e cada livro na estante oferece a chance de viver uma vida que ela poderia ter tido se tivesse feito escolhas diferentes: e se ela não tivesse desistido da natação? E se tivesse casado com o ex-noivo? E se tivesse continuado na banda de rock do irmão?
Guiada pela bibliotecária da sua infância, a Sra. Elm, Nora embarca em uma jornada através de dezenas de realidades paralelas para tentar encontrar a vida "perfeita" onde ela possa finalmente ser feliz, antes que o tempo na biblioteca se esgote.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Amêndoas (Almond), de Won-pyung Sohn


Minha opinião: Ganhei esse livro de presente da minha filha hoje e, acreditem, devorei tudo no mesmo dia! A história me prendeu de um jeito que eu não conseguia largar.

O livro conta a história de Yunjae, um jovem que nasceu com uma condição neurológica que o impede de sentir emoções ou descrevê-las (alexitimia). Eu achei essa premissa fascinante desde o início. A narrativa flui tanto que a gente nem percebe o tempo passar; é um verdadeiro mergulho na mente dele.
Yunjae vai nos contando sua história, suas perdas e, principalmente, como é difícil ser "diferente" em um mundo que exige o tempo todo que você seja "normal". Essa parte tocou meu coração de mãe de um jeito especial.

Minha filha é autista e eu sei, na pele, o quanto a vida pode ser complicada para ela e o quanto é angustiante para mim. Como mãe, muitas vezes a gente só queria ter o poder de mudar o mundo para que todos entendessem e respeitassem nossos filhos. Por isso, eu entendi profundamente a mãe do Yunjae. Mesmo quando ela tentava "treiná-lo" para parecer normal, eu senti que não era por mal, mas uma tentativa desesperada de fazer com que ele não sofresse, de criar uma armadura para ele, mesmo que ele não entendesse isso na época.

Outro ponto alto é a amizade improvável que ele cria com Gon. A autora constrói um contraste incrível entre os dois: um que não sente nada e outro que sente tudo com raiva e excesso. O livro nos faz refletir sobre como as pessoas são, como gostaríamos que elas fossem e como tudo poderia ser mais simples se houvesse mais empatia.
Amêndoas é um livro ótimo, sensível e necessário. Terminei a leitura com o coração cheio.

Sinopse

Yunjae nasceu com uma condição cerebral chamada alexitimia, o que significa que suas amígdalas (as estruturas no cérebro responsáveis pelo processamento de emoções) são subdesenvolvidas — pequenas como amêndoas. Como resultado, Yunjae não sente medo, raiva, tristeza ou alegria. Para ele, o mundo é confuso, e as pessoas são charadas indecifráveis.
Criado por sua mãe e avó, ele é treinado diariamente para memorizar expressões faciais e respostas sociais "corretas" para tentar se misturar e não chamar atenção. Porém, no seu aniversário de 16 anos, uma tragédia violenta deixa Yunjae sozinho no mundo, sem sua rede de proteção.
É então que ele conhece Gon, um garoto problemático, violento e cheio de cicatrizes emocionais, que é o seu oposto exato. O livro narra o desenvolvimento dessa amizade improvável entre um monstro que não sente nada e um monstro que sente demais, explorando se é possível aprender a sentir e o que realmente significa ser humano.