sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Se Adaptar – Clara Dupont-Monod


Minha opinião: Existem livros que nos atravessam pela força das suas metáforas. Se Adaptar é, sem dúvida, um deles. A narrativa acompanha o impacto da chegada de um menino com deficiência severa em uma família, mas foge de qualquer obviedade ao escolher um narrador inusitado: as pedras do quintal da casa. Testemunhas silenciosas, essas pedras narram com um carinho palpável a reconfiguração dos vínculos e a tentativa de cada membro da família de sobreviver a essa nova realidade.
O livro é dividido em três atos, focados na perspectiva dos irmãos. No primeiro, somos engolidos pelo irmão mais velho e por um amor que é tão gigante quanto doloroso. Ele assume o lugar de cuidador, movido por uma necessidade voraz de salvar o menino. É uma entrega que consome a sua própria vida. A narrativa nos faz sentir na pele o medo, o peso do preconceito do mundo e essa simbiose que o faz quase "morrer por dentro" ao tentar proteger o irmão do inevitável.
No segundo capítulo, encontramos a irmã do meio. Se o mais velho vive a fusão, ela vive o deslocamento. Com a chegada de um bebê que cresce em tamanho, mas permanece demandando um cuidado infinito, ela perde o seu lugar de atenção. A autora é brilhante ao descrever o conflito silenciado: como nomear a raiva, a ansiedade e o ciúme quando a causa é um irmão que não fala e não se move? O livro desnuda a hipocrisia de quem se recusa a associar o sofrimento da menina ao impacto da deficiência na casa. Ela se perde, assume a carga de "levantar" a família, mas a um custo emocional altíssimo.
Por fim, a terceira parte traz o filho caçula, nascido após a morte do menino. E foi aqui que a história mais me marcou. Ele chega a um ambiente já habitado pelo fantasma do que o irmão foi e do que a família viveu. Dono de uma alma de potência poética e inteligência cortante, ele sente tudo, inclusive aquilo que não viveu. É um retrato visceral de como a história pregressa de uma família se mantém, cria fantasias, impede movimentos, mas, ao mesmo tempo, força a mudança. Uma leitura intensa, bonita e absolutamente imersiva sobre os limites do cuidado e as marcas invisíveis do afeto.

Sinopse do Livro
Vencedor de prêmios literários de peso na França, como o Prêmio Femina e o Prêmio Goncourt des Lycéens, Se Adaptar explora os abalos sísmicos que o nascimento de uma criança com deficiência severa provoca na estrutura de uma família. Narrado de forma original pelas pedras do pátio da casa da família, o romance foca não nos pais, mas nas perspectivas e nos destinos dos três irmãos: o mais velho, que se funde ao bebê em um amor de extrema proteção; a irmã do meio, que se rebela diante da perda de seu lugar e da atmosfera de luto constante; e o caçula, que nasce depois para viver à sombra de um fantasma e tentar reconciliar o passado com o futuro.

Há uma lápide com o seu nome – Camilla Canuto


Minha opinião: Este é um livro sobre como as marcas ficam e continuam latejando, mantendo feridas abertas que, silenciosamente, desconfiguram as pessoas e suas relações. Ao mergulhar na intimidade dessa família, somos confrontados com uma rotina profundamente marcada pela incomunicabilidade. Acompanhamos a tensão latente entre Adelaide, que é uma mãe amargurada e cotidianamente cerceada pelo marido, e sua filha, Alice, que a incompreende.

O que torna a narrativa tão visceral é que temos acesso aos dois lados dessa dor. Sentimos a angústia de Adelaide, que teve o destino atravessado por uma gravidez indesejada antes mesmo de completar quinze anos. Vemos a sua busca por ser olhada, por encontrar algum espaço próprio em uma vida que lhe foi imposta. Ao mesmo tempo, acompanhamos Alice, que nasceu a despeito da vontade de um pai (João) que não a desejava. 
Alice tenta achar seu caminho e, fundamentalmente, anseia por ser amada em um ambiente de faltas e excessos. É palpável a agonia dessa mãe infeliz que não consegue se aproximar da filha, e o desespero da filha que esbarra nessa barreira invisível de ressentimento.
Muitas vezes, quem olha de fora enxerga apenas a superfície,  julga a mulher como chata, amargurada ou fofoqueira, mas não entende o peso e as fraturas que aquela vida carrega. Acompanhar a trajetória dessas personagens nos faz pensar que, nas tramas familiares, raramente existe o "bom" e o "mau" de forma absoluta.
 O que existe é a vida acontecendo: o sofrimento herdado, o aprendizado duro e a tentativa constante de mudar, de ficar ou de ir embora. É uma leitura que nos exige escuta para aquilo que grita no silêncio de uma casa.

Sinopse do Livro
Em seu romance de estreia, a escritora sergipana Camilla Canuto questiona o papel da mulher ao narrar o dia a dia de uma família fraturada pela falta de diálogo. A história costura os destinos de Adelaide, João e sua filha, Alice. A dinâmica do trio é selada logo no início: antes de completar quinze anos, Adelaide engravida de João, que deixa claro desde as primeiras linhas não desejar que a criança venha ao mundo. A partir desse trauma original, o livro explora de forma delicada e comovente as realidades familiares, o ressentimento da filha, a amargura da mãe e os excessos do pai, fugindo de lugares-comuns para mostrar o que se esconde no farfalhar das cortinas da intimidade.

Os Ratos – Dyonélio Machado


Minha opinião: Existem livros que lemos e livros que sentimos no corpo. Os Ratos pertence ao segundo grupo. Recebi a indicação por ser considerado um "avô" de Os Supridores, e a relação é nítida: ambos tratam da sobrevivência nas bordas de um sistema que não perdoa a falta de capital. Mas aqui, Dyonélio foca na tragédia psicológica de um fato banal: a dívida.
Acompanhar Naziazeno por apenas um dia é mergulhar em uma loucura silenciosa. Para quem já sentiu o frio na barriga de não saber como arcar com um compromisso, a narrativa é de um realismo desconfortável. É a história de quem vive no limite, "cobrindo um santo para descobrir outro", em um ciclo onde o alívio de pagar uma conta já nasce morto pela dívida que se fez para quitá-la.
O que mais me tocou foi a descrição da vergonha. O ato de pedir emprestado, o desvio do olhar, a dependência do outro e os devaneios que beiram o delírio. Naziazeno transita entre o desconforto da humilhação e o conforto efêmero de uma possibilidade de dinheiro, em um fluxo de pensamento que nos transmite toda a sua agonia.
É uma escrita poderosa que transforma o dinheiro em um personagem fantasmagórico. Ao final, fica a reflexão sobre como a falta de recursos molda a nossa autonomia e nossos vínculos. É uma descoberta literária visceral: um livro sobre o ontem que, infelizmente, diz muito sobre o hoje.

Sinopse
Clássico do modernismo brasileiro, o livro narra 24 horas da vida de Naziazeno Barbosa, um funcionário público de baixo escalão que precisa desesperadamente de 53 mil réis para pagar a dívida com o leiteiro, sob o risco de ficar sem o suprimento para sua família. A trama se resume a essa jornada física e mental pelas ruas de Porto Alegre: a busca incessante por um empréstimo, os encontros humilhantes, as esperanças que se desfazem e a sensação de ser perseguido por uma força invisível, enquanto o tempo urge e a dignidade se esfarela.

O Impulso – Won-pyung Sohn

Minha opinião: Ler O Impulso é um exercício de paciência e de espelhamento.
 Após a experiência sensível com Amêndoas, mergulhei nesta nova obra de Won-pyung Sohn com a expectativa de encontrar uma trajetória clássica de ascensão. Mas o que a autora nos entrega é algo muito mais visceral e, por vezes, incômodo: a resistência da realidade.
O protagonista, Kim, não é um herói de transformação rápida. Ele é o retrato da repetição. Ao acompanhá-lo, somos confrontados com a dificuldade genuína de romper com ciclos de desânimo. O livro toca em feridas abertas sobre o desejo e a autonomia: até onde vai a nossa escolha quando o mundo ao redor parece ruir?

Confesso que, como leitora, houve momentos de uma certa decepção — não pela escrita, que é ágil e precisa, mas pelo realismo da trama. Queremos que o personagem acerte, que os sonhos se realizem e que o apoio apareça de forma mágica. Queremos o clichê do "final feliz" porque ele nos conforta. 
No entanto, Sohn escolhe nos mostrar que a mudança muitas vezes é lenta, feia e cheia de retrocessos.
A obra me fez refletir profundamente sobre o peso das nossas expectativas. É um livro rápido de ler, mas que demora a ser processado. Ele nos lembra que, embora os sonhos nem sempre se concretizem da forma que planejamos, a tentativa de mudar a própria postura diante da vida , literalmente e simbolicamente, já é um ato de coragem. É uma leitura que não oferece respostas prontas, mas que sustenta a ambivalência entre o fracasso e a persistência de um modo muito honesto.

Sinopse
O livro nos apresenta Seong-gon Kim, um homem de quase cinquenta anos que sente que sua vida é um acúmulo de fracassos. Após várias tentativas de negócios que deram errado e um distanciamento doloroso de sua família, ele chega ao seu limite e decide desistir de tudo. No entanto, após uma tentativa de suicídio frustrada, ele encontra uma mensagem que o instiga a mudar apenas uma pequena coisa: sua postura física. A narrativa acompanha esse esforço hercúleo de Kim para alterar seus hábitos mais enraizados, endireitar as costas e, quem sabe, encontrar um novo sentido para sua existência em um mundo que parece não ter lugar para ele.


sábado, 14 de fevereiro de 2026

As Miniaturas - Andréa del Fuego

Minha Opinião
Encontrei este livro quase por acaso no Sesc, procurando por outra obra da autora (A Pediatra), e acabei devorando-o em uma única manhã. A leitura é impressionantemente fluida; a escrita da Andréa del Fuego nos carrega com uma leveza que contrasta com a estranheza da trama. Confesso que fechei o livro sem ter certeza se entendi tudo racionalmente, mas percebi que a obra não pede explicação lógica, ela pede entrega.
O livro opera na atmosfera do "Oneiro", como se fosse um sonho, ou o inconsciente, um lugar onde ninguém tem o controle e onde somos guiados por forças misteriosas. O que mais me prendeu, no entanto, foi a dinâmica familiar disfuncional: a mãe e o filho vivem uma relação de ambivalência, querendo partir mas precisando ficar, "se atravessando" o tempo todo. É uma convivência onde todos parecem fingir que não veem a realidade para conseguirem permanecer juntos. É uma obra onírica, misteriosa e que nos deixa com a sensação de termos acordado de um sonho vívido e estranho.

Sinopse
Em As Miniaturas, Andréa del Fuego constrói um romance que desafia a realidade concreta. A trama se passa em um edifício misterioso, próximo ao Oneiro (o centro dos sonhos), onde funcionários trabalham para reduzir o mundo a maquetes e miniaturas. Nesse cenário onde as leis da física e da vida cotidiana parecem suspensas, acompanhamos personagens que lidam com a fronteira tênue entre a vigília, o sono e a morte. É uma narrativa sobre o desejo de controle sobre a vida e a inevitabilidade de sermos guiados pelo nosso próprio inconsciente.

Uma Noite na Livraria Morisaki - Satoshi Yagisawa


Minha Opinião
Ler literatura japonesa contemporânea, especialmente deste gênero, é entrar em uma frequência diferente: há uma inocência e um respeito onipresentes que marcam o tom da narrativa. Uma Noite na Livraria Morisaki é um livro "fofo", sem sobressaltos, sem grandes dramas ou emoções desmedidas. Ele discorre sobre a beleza sutil da vida normal.
Para mim, o ponto alto foi observar a cultura japonesa nessas entrelinhas: a educação extrema, a quantidade de pedidos de desculpas e, principalmente, a dificuldade dos personagens em verbalizar sentimentos. Há um cuidado imenso em não dizer algo que magoe ou incomode o outro, o que cria diálogos contidos, mas cheios de significado. Confesso que gostei mais do primeiro livro (Meus Dias na Livraria Morisaki), que achei mais envolvente, mas esta continuação cumpre bem o papel de ser uma leitura leve, ideal para passar o tempo e desopilar de leituras mais pesadas.

Sinopse
Nesta sequência de Meus Dias na Livraria Morisaki, retornamos ao famoso bairro de livrarias de Tóquio, Jinbōchō. Takako, que encontrou refúgio na livraria do tio Satoru no primeiro livro, agora segue sua vida, mas continua orbitando aquele universo de papel e tinta. Desta vez, a trama se aprofunda na relação entre o tio Satoru e sua esposa, Momoko, revelando mais sobre o passado misterioso dela e as dinâmicas desse casal peculiar. Entre cafés, passeios pelas ruas cheias de livros usados e conversas silenciosas, a obra explora os laços familiares, o reencontro consigo mesmo e o conforto que só uma livraria antiga pode oferecer.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Circe - Madeline Miller


Minha opinião (contém spoiler)

A leitura de Circe foi uma grata surpresa que me capturou pela escrita fluida e encantadora de Madeline Miller. Mas o que realmente me prendeu não foi apenas a mitologia em si, mas a coragem da autora em despir os deuses de sua glória habitual. O que vemos no Olimpo não é sabedoria, é um narcisismo puro e cru. Os deuses são retratados como figuras egocêntricas, infantis e sem escrúpulos, para quem a vida dos outros (mortais ou menores) não tem sentido algum além de servir aos seus caprichos. É fascinante ver essa "família disfuncional" divina operar sob uma lógica de poder tóxico, onde não há espaço para afeto ou empatia.

Contrapondo-se a esse ruído do Olimpo, temos o exílio. Quando Circe é banida para a ilha de Eana, poderíamos esperar uma narrativa monótona de solidão. No entanto, acontece o oposto: a ilha pulsa vida. É no isolamento que a história realmente acontece, porque é ali que Circe deixa de ser uma ninfa submissa para se tornar sujeito de sua própria vida.
A ilha funciona quase como um espaço terapêutico de elaboração: é ali, entre as plantas, os animais e a feitiçaria (que ela descobre pelo esforço, não por dádiva), que ela constrói sua identidade. A cada visita que recebe — de Odisseu a Dédalo —, ela refina seu olhar sobre o mundo, deixando de ser a vítima rejeitada para ser a Feiticeira que impõe limites.

O ponto alto, sem dúvida, é o desfecho. Diferente da mitologia clássica, onde a meta final é sempre a apoteose e a imortalidade, Madeline Miller nos entrega um final subversivo e profundamente bonito: a escolha pela mortalidade.
Circe percebe que a eternidade dos deuses é estática, fria e, em última análise, vazia. Ao escolher envelhecer, sangrar e morrer, ela está, na verdade, escolhendo viver. Ela entende que é a finitude que dá contorno e sentido à experiência e ao amor. É uma conclusão filosófica poderosa: a de que a beleza da vida reside justamente no fato de que ela acaba.

Circe não é apenas uma releitura mitológica; é um estudo sobre a formação de uma mulher que precisou ser expulsa do "paraíso" para encontrar sua própria humanidade. Uma obra densa, que entrelaça o fantástico com questões psíquicas reais sobre rejeição, autonomia e a coragem de escrever o próprio destino, mesmo quando os deuses dizem o contrário.

Sinopse
Na casa de Hélio, o deus do Sol e o mais poderoso dos titãs, nasce Circe. Uma criança estranha, sem os poderes divinos óbvios de seu pai e desprezada por sua mãe, ela é vista como uma decepção no salão dourado dos deuses. Isolada e buscando aceitação, Circe acaba descobrindo um poder proibido e perigoso: a feitiçaria. Quando seus dons ameaçam a ordem estabelecida, Zeus a bane para uma ilha deserta, Eana.
Mas o exílio não é o fim; é o começo. Ali, Circe aprimora suas artes ocultas, doma feras selvagens e cruza o caminho das figuras mais famosas da mitologia: o Minotauro, Dédalo, a furiosa Medeia e, é claro, o astuto Odisseu. Mas o maior desafio de Circe não são os monstros ou os deuses vingativos que tentam destruí-la, e sim a batalha interna para descobrir a quem ela pertence: ao mundo dos deuses, de onde veio, ou ao mundo dos mortais, que ela aprendeu a amar profundamente.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada - Carolina Maria de Jesus


Minha Opinião
Já tinha ouvido falar dessa obra há tempos, mas acredito que só hoje, aos 40 anos, consegui ter a vivência necessária para apreciá-la. Quem acompanha minhas leituras percebe a mudança: aos 20, eu buscava romances juvenis, paixões intensas e fugas da realidade; a dureza da vida não me interessava. Hoje, meu olhar é outro. Não encaro isso como uma "evolução" — pois acredito que toda fase e todo gosto têm sua importância —, mas como um novo momento que me permite compreender a profundidade dolorosa de Quarto de Despejo.
O livro tem um ritmo que pode parecer repetitivo, e é exatamente aí que mora a sua força. A narrativa nos faz sentir na pele a falta de perspectiva que mata, aquela sensação de que o amanhã será igual ao hoje. Estamos acostumados, na ficção, a reviravoltas e meritocracia, mas aqui a fome é a protagonista constante. Carolina nos mostra que, mesmo trabalhando até a exaustão física e carregando pesos sobre-humanos, a pobreza teima em não ir embora. A inteligência brilhante da autora e seus sonhos convivem com a miséria da favela, provando que o esforço individual muitas vezes não basta para romper o ciclo da desigualdade. É uma história fortíssima, que precisa ser lida e, acima de tudo, compreendida.

Sinopse
Publicado originalmente em 1960, Quarto de Despejo reproduz o diário real de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel, negra, mãe solteira e moradora da extinta favela do Canindé, em São Paulo. Com uma linguagem crua e poética, que preserva a ortografia e a gramática originais da autora, a obra relata o cotidiano de luta pela sobrevivência, a busca incessante por comida para os três filhos e a invisibilidade social. Mais do que um relato autobiográfico, é um documento histórico e sociológico que denuncia o abismo entre a cidade rica e a periferia esquecida.

fevereiro começa aqui Tese sobre uma domesticação - Camila Sosa Villada


Minha opinião: Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.
Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.
É uma ​Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.

​Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.

​É uma leitura instigante e difícil em alguns momentos, pois a autora não romantiza a realidade. Mas, acima de tudo, é uma obra sobre a humanidade compartilhada. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse

​Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse
Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guerra do Velho - John Scalzi


Mnha opinião: A Guerra do Velho (Vol. 1)
Como fã de ficção científica, busco sempre autores capazes de criar mundos novos e situações inesperadas, e John Scalzi entrega exatamente isso neste primeiro volume. A premissa de idosos de 75 anos se alistando para ganhar corpos novos e lutar no espaço é fascinante, e a construção desse universo me prendeu bastante, especialmente as dinâmicas das batalhas e a tecnologia de transferência de consciência.
O protagonista, John Perry, segue um estilo bem clichê — aquele tipo "Rambo" que, mesmo sem experiência prévia, parece saber de tudo, supera todos os obstáculos e sempre vence. Mas isso não chega a atrapalhar porque ele é extremamente carismático e narra a história de um jeito que prende a atenção. O ponto baixo para mim foi a introdução do romance com a "cópia" da esposa falecida dele. Achei desnecessário; a trama funcionava muito bem só com a adrenalina da guerra e a exploração espacial, sem precisar desse drama afetivo no meio. Ainda assim, é uma ficção científica muito boa e sólida, que me deixou com vontade de seguir para os próximos livros, mesmo não sendo a melhor que já li na vida.

Sinopse
Em A Guerra do Velho, a humanidade finalmente chegou às estrelas, mas o espaço é um lugar hostil e disputado. Para defender as colônias humanas, a Terra recruta soldados com uma condição peculiar: eles devem ter 75 anos ou mais. Em troca de sua vida na Terra — para onde nunca mais poderão voltar —, esses idosos recebem corpos rejuvenescidos, geneticamente modificados e prontos para a guerra. John Perry é um desses recrutas que, após o luto e a velhice, decide apostar tudo nessa nova chance de viver, descobrindo que a guerra intergaláctica é muito mais estranha e brutal do que ele imaginava.

Ensaios de Despedida de Elisama Santos


Minha opinião: Iniciei a leitura de "Ensaios de Despedida", de Elisama Santos, com uma expectativa altíssima, vinda da experiência forte que tive com "Mesmo Rio", obra anterior da autora. Aqui, encontrei uma estrutura narrativa diferente, mas igualmente impactante: o livro é construído a partir de cartas de uma mãe para uma filha — cartas que a filha não lê, mas que servem como a única via possível para essa mulher elaborar o que sente.
É uma leitura intensa sobre as dualidades femininas: a vontade de partir versus a obrigação de ficar; o desejo de viver a própria vida versus a renúncia para que os outros vivam. A autora retrata com crueza como nos negamos como pessoas para caber no papel de cuidadora e como, muitas vezes, não conseguimos sair desse lugar. O livro me provocou uma reflexão profunda sobre o que fazemos no piloto automático: como o lugar do cuidado acaba ficando "marcado" em nós, mulheres, como uma segunda pele, nos aprisionando em funções que nos apagam, mesmo quando gritamos internamente por liberdade.

Sinopse
Em Ensaios de Despedida, Elisama Santos apresenta a intimidade de uma mulher que, prestes a completar 50 anos, decide rever sua trajetória através de cartas escritas para a filha e para a mãe já falecida. Através dessa correspondência unilateral, ela confessa os segredos de um casamento desgastado, a solidão acompanhada e o peso insustentável de ter vivido sempre em função das necessidades alheias. É um romance sobre o direito de mudar de rota, a complexidade das relações familiares e o custo emocional de ser a base de sustentação de todos, menos de si mesma.

Suíte Tóquio de Giovana Madalosso


Minha opinião: A leitura de "Suíte Tóquio", de Giovana Madalosso, foi uma experiência que me prendeu do início ao fim, especialmente pela estrutura narrativa que alterna entre as vozes das personagens, criando uma tensão constante. Inicialmente, a trama me despertou sentimentos ambíguos e muita raiva, não apenas pelo sequestro da criança em si, mas pela postura da mãe, Fernanda, que me pareceu extremamente relapsa. No entanto, ao longo da leitura, fui desconstruindo esse julgamento e entendendo a crítica social por trás dele: Fernanda age exatamente como um "pai tradicional" — ela sustenta a casa, prioriza a carreira e exerce o cuidado à sua maneira. Percebi que ela não seria criticada se fosse um homem desempenhando esse mesmo papel de provedor, o que escancara o peso desproporcional sobre a maternidade.
O livro explora esses papéis invertidos e a complexidade das relações de trabalho doméstico com uma força impressionante. A posição da babá, Maju, é retratada de forma dolorosa: uma mulher que não tem direito a ter vida própria, a ponto de precisar negociar uma folga para tentar engravidar. É chocante ver como o cuidado é mercantilizado e como existem abismos entre "o cuidado que não é cuidado" (a negligência afetiva) e "o cuidado que é cuidado" (o vínculo real, mesmo que em contextos perigosos). Os perigos, os encontros e os desencontros dessa história tornam a obra um estudo fascinante sobre classes sociais, afetos e a invisibilidade de quem cuida.

Sinopse
Em "Suíte Tóquio", uma babá decide levar a criança de quem cuida para um passeio não autorizado, desencadeando uma trama de suspense psicológico e crítica social. Enquanto a funcionária e a menina mergulham em uma jornada imprevisível, a narrativa alterna para o ponto de vista da mãe, uma executiva de televisão imersa em uma crise no casamento e na carreira. O desaparecimento da filha obriga a mãe a confrontar sua própria ausência e as falhas na dinâmica familiar. Giovana Madalosso constrói um thriller doméstico ágil que disseca as relações de poder, a culpa materna e as fronteiras tênues entre afeto e subordinação no Brasil contemporâneo.