Minha opinião: Existem livros que nos atravessam pela força das suas metáforas. Se Adaptar é, sem dúvida, um deles. A narrativa acompanha o impacto da chegada de um menino com deficiência severa em uma família, mas foge de qualquer obviedade ao escolher um narrador inusitado: as pedras do quintal da casa. Testemunhas silenciosas, essas pedras narram com um carinho palpável a reconfiguração dos vínculos e a tentativa de cada membro da família de sobreviver a essa nova realidade.
O livro é dividido em três atos, focados na perspectiva dos irmãos. No primeiro, somos engolidos pelo irmão mais velho e por um amor que é tão gigante quanto doloroso. Ele assume o lugar de cuidador, movido por uma necessidade voraz de salvar o menino. É uma entrega que consome a sua própria vida. A narrativa nos faz sentir na pele o medo, o peso do preconceito do mundo e essa simbiose que o faz quase "morrer por dentro" ao tentar proteger o irmão do inevitável.
No segundo capítulo, encontramos a irmã do meio. Se o mais velho vive a fusão, ela vive o deslocamento. Com a chegada de um bebê que cresce em tamanho, mas permanece demandando um cuidado infinito, ela perde o seu lugar de atenção. A autora é brilhante ao descrever o conflito silenciado: como nomear a raiva, a ansiedade e o ciúme quando a causa é um irmão que não fala e não se move? O livro desnuda a hipocrisia de quem se recusa a associar o sofrimento da menina ao impacto da deficiência na casa. Ela se perde, assume a carga de "levantar" a família, mas a um custo emocional altíssimo.
Por fim, a terceira parte traz o filho caçula, nascido após a morte do menino. E foi aqui que a história mais me marcou. Ele chega a um ambiente já habitado pelo fantasma do que o irmão foi e do que a família viveu. Dono de uma alma de potência poética e inteligência cortante, ele sente tudo, inclusive aquilo que não viveu. É um retrato visceral de como a história pregressa de uma família se mantém, cria fantasias, impede movimentos, mas, ao mesmo tempo, força a mudança. Uma leitura intensa, bonita e absolutamente imersiva sobre os limites do cuidado e as marcas invisíveis do afeto.
Sinopse do Livro
Vencedor de prêmios literários de peso na França, como o Prêmio Femina e o Prêmio Goncourt des Lycéens, Se Adaptar explora os abalos sísmicos que o nascimento de uma criança com deficiência severa provoca na estrutura de uma família. Narrado de forma original pelas pedras do pátio da casa da família, o romance foca não nos pais, mas nas perspectivas e nos destinos dos três irmãos: o mais velho, que se funde ao bebê em um amor de extrema proteção; a irmã do meio, que se rebela diante da perda de seu lugar e da atmosfera de luto constante; e o caçula, que nasce depois para viver à sombra de um fantasma e tentar reconciliar o passado com o futuro.