sábado, 14 de fevereiro de 2026

As Miniaturas - Andréa del Fuego

Minha Opinião
Encontrei este livro quase por acaso no Sesc, procurando por outra obra da autora (A Pediatra), e acabei devorando-o em uma única manhã. A leitura é impressionantemente fluida; a escrita da Andréa del Fuego nos carrega com uma leveza que contrasta com a estranheza da trama. Confesso que fechei o livro sem ter certeza se entendi tudo racionalmente, mas percebi que a obra não pede explicação lógica, ela pede entrega.
O livro opera na atmosfera do "Oneiro", como se fosse um sonho, ou o inconsciente, um lugar onde ninguém tem o controle e onde somos guiados por forças misteriosas. O que mais me prendeu, no entanto, foi a dinâmica familiar disfuncional: a mãe e o filho vivem uma relação de ambivalência, querendo partir mas precisando ficar, "se atravessando" o tempo todo. É uma convivência onde todos parecem fingir que não veem a realidade para conseguirem permanecer juntos. É uma obra onírica, misteriosa e que nos deixa com a sensação de termos acordado de um sonho vívido e estranho.

Sinopse
Em As Miniaturas, Andréa del Fuego constrói um romance que desafia a realidade concreta. A trama se passa em um edifício misterioso, próximo ao Oneiro (o centro dos sonhos), onde funcionários trabalham para reduzir o mundo a maquetes e miniaturas. Nesse cenário onde as leis da física e da vida cotidiana parecem suspensas, acompanhamos personagens que lidam com a fronteira tênue entre a vigília, o sono e a morte. É uma narrativa sobre o desejo de controle sobre a vida e a inevitabilidade de sermos guiados pelo nosso próprio inconsciente.

Uma Noite na Livraria Morisaki - Satoshi Yagisawa


Minha Opinião
Ler literatura japonesa contemporânea, especialmente deste gênero, é entrar em uma frequência diferente: há uma inocência e um respeito onipresentes que marcam o tom da narrativa. Uma Noite na Livraria Morisaki é um livro "fofo", sem sobressaltos, sem grandes dramas ou emoções desmedidas. Ele discorre sobre a beleza sutil da vida normal.
Para mim, o ponto alto foi observar a cultura japonesa nessas entrelinhas: a educação extrema, a quantidade de pedidos de desculpas e, principalmente, a dificuldade dos personagens em verbalizar sentimentos. Há um cuidado imenso em não dizer algo que magoe ou incomode o outro, o que cria diálogos contidos, mas cheios de significado. Confesso que gostei mais do primeiro livro (Meus Dias na Livraria Morisaki), que achei mais envolvente, mas esta continuação cumpre bem o papel de ser uma leitura leve, ideal para passar o tempo e desopilar de leituras mais pesadas.

Sinopse
Nesta sequência de Meus Dias na Livraria Morisaki, retornamos ao famoso bairro de livrarias de Tóquio, Jinbōchō. Takako, que encontrou refúgio na livraria do tio Satoru no primeiro livro, agora segue sua vida, mas continua orbitando aquele universo de papel e tinta. Desta vez, a trama se aprofunda na relação entre o tio Satoru e sua esposa, Momoko, revelando mais sobre o passado misterioso dela e as dinâmicas desse casal peculiar. Entre cafés, passeios pelas ruas cheias de livros usados e conversas silenciosas, a obra explora os laços familiares, o reencontro consigo mesmo e o conforto que só uma livraria antiga pode oferecer.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Circe - Madeline Miller


Minha opinião (contém spoiler)

A leitura de Circe foi uma grata surpresa que me capturou pela escrita fluida e encantadora de Madeline Miller. Mas o que realmente me prendeu não foi apenas a mitologia em si, mas a coragem da autora em despir os deuses de sua glória habitual. O que vemos no Olimpo não é sabedoria, é um narcisismo puro e cru. Os deuses são retratados como figuras egocêntricas, infantis e sem escrúpulos, para quem a vida dos outros (mortais ou menores) não tem sentido algum além de servir aos seus caprichos. É fascinante ver essa "família disfuncional" divina operar sob uma lógica de poder tóxico, onde não há espaço para afeto ou empatia.

Contrapondo-se a esse ruído do Olimpo, temos o exílio. Quando Circe é banida para a ilha de Eana, poderíamos esperar uma narrativa monótona de solidão. No entanto, acontece o oposto: a ilha pulsa vida. É no isolamento que a história realmente acontece, porque é ali que Circe deixa de ser uma ninfa submissa para se tornar sujeito de sua própria vida.
A ilha funciona quase como um espaço terapêutico de elaboração: é ali, entre as plantas, os animais e a feitiçaria (que ela descobre pelo esforço, não por dádiva), que ela constrói sua identidade. A cada visita que recebe — de Odisseu a Dédalo —, ela refina seu olhar sobre o mundo, deixando de ser a vítima rejeitada para ser a Feiticeira que impõe limites.

O ponto alto, sem dúvida, é o desfecho. Diferente da mitologia clássica, onde a meta final é sempre a apoteose e a imortalidade, Madeline Miller nos entrega um final subversivo e profundamente bonito: a escolha pela mortalidade.
Circe percebe que a eternidade dos deuses é estática, fria e, em última análise, vazia. Ao escolher envelhecer, sangrar e morrer, ela está, na verdade, escolhendo viver. Ela entende que é a finitude que dá contorno e sentido à experiência e ao amor. É uma conclusão filosófica poderosa: a de que a beleza da vida reside justamente no fato de que ela acaba.

Circe não é apenas uma releitura mitológica; é um estudo sobre a formação de uma mulher que precisou ser expulsa do "paraíso" para encontrar sua própria humanidade. Uma obra densa, que entrelaça o fantástico com questões psíquicas reais sobre rejeição, autonomia e a coragem de escrever o próprio destino, mesmo quando os deuses dizem o contrário.

Sinopse
Na casa de Hélio, o deus do Sol e o mais poderoso dos titãs, nasce Circe. Uma criança estranha, sem os poderes divinos óbvios de seu pai e desprezada por sua mãe, ela é vista como uma decepção no salão dourado dos deuses. Isolada e buscando aceitação, Circe acaba descobrindo um poder proibido e perigoso: a feitiçaria. Quando seus dons ameaçam a ordem estabelecida, Zeus a bane para uma ilha deserta, Eana.
Mas o exílio não é o fim; é o começo. Ali, Circe aprimora suas artes ocultas, doma feras selvagens e cruza o caminho das figuras mais famosas da mitologia: o Minotauro, Dédalo, a furiosa Medeia e, é claro, o astuto Odisseu. Mas o maior desafio de Circe não são os monstros ou os deuses vingativos que tentam destruí-la, e sim a batalha interna para descobrir a quem ela pertence: ao mundo dos deuses, de onde veio, ou ao mundo dos mortais, que ela aprendeu a amar profundamente.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada - Carolina Maria de Jesus


Minha Opinião
Já tinha ouvido falar dessa obra há tempos, mas acredito que só hoje, aos 40 anos, consegui ter a vivência necessária para apreciá-la. Quem acompanha minhas leituras percebe a mudança: aos 20, eu buscava romances juvenis, paixões intensas e fugas da realidade; a dureza da vida não me interessava. Hoje, meu olhar é outro. Não encaro isso como uma "evolução" — pois acredito que toda fase e todo gosto têm sua importância —, mas como um novo momento que me permite compreender a profundidade dolorosa de Quarto de Despejo.
O livro tem um ritmo que pode parecer repetitivo, e é exatamente aí que mora a sua força. A narrativa nos faz sentir na pele a falta de perspectiva que mata, aquela sensação de que o amanhã será igual ao hoje. Estamos acostumados, na ficção, a reviravoltas e meritocracia, mas aqui a fome é a protagonista constante. Carolina nos mostra que, mesmo trabalhando até a exaustão física e carregando pesos sobre-humanos, a pobreza teima em não ir embora. A inteligência brilhante da autora e seus sonhos convivem com a miséria da favela, provando que o esforço individual muitas vezes não basta para romper o ciclo da desigualdade. É uma história fortíssima, que precisa ser lida e, acima de tudo, compreendida.

Sinopse
Publicado originalmente em 1960, Quarto de Despejo reproduz o diário real de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel, negra, mãe solteira e moradora da extinta favela do Canindé, em São Paulo. Com uma linguagem crua e poética, que preserva a ortografia e a gramática originais da autora, a obra relata o cotidiano de luta pela sobrevivência, a busca incessante por comida para os três filhos e a invisibilidade social. Mais do que um relato autobiográfico, é um documento histórico e sociológico que denuncia o abismo entre a cidade rica e a periferia esquecida.

fevereiro começa aqui Tese sobre uma domesticação - Camila Sosa Villada


Minha opinião: Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.
Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.
É uma ​Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.

​Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.

​É uma leitura instigante e difícil em alguns momentos, pois a autora não romantiza a realidade. Mas, acima de tudo, é uma obra sobre a humanidade compartilhada. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse

​Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse
Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guerra do Velho - John Scalzi


Mnha opinião: A Guerra do Velho (Vol. 1)
Como fã de ficção científica, busco sempre autores capazes de criar mundos novos e situações inesperadas, e John Scalzi entrega exatamente isso neste primeiro volume. A premissa de idosos de 75 anos se alistando para ganhar corpos novos e lutar no espaço é fascinante, e a construção desse universo me prendeu bastante, especialmente as dinâmicas das batalhas e a tecnologia de transferência de consciência.
O protagonista, John Perry, segue um estilo bem clichê — aquele tipo "Rambo" que, mesmo sem experiência prévia, parece saber de tudo, supera todos os obstáculos e sempre vence. Mas isso não chega a atrapalhar porque ele é extremamente carismático e narra a história de um jeito que prende a atenção. O ponto baixo para mim foi a introdução do romance com a "cópia" da esposa falecida dele. Achei desnecessário; a trama funcionava muito bem só com a adrenalina da guerra e a exploração espacial, sem precisar desse drama afetivo no meio. Ainda assim, é uma ficção científica muito boa e sólida, que me deixou com vontade de seguir para os próximos livros, mesmo não sendo a melhor que já li na vida.

Sinopse
Em A Guerra do Velho, a humanidade finalmente chegou às estrelas, mas o espaço é um lugar hostil e disputado. Para defender as colônias humanas, a Terra recruta soldados com uma condição peculiar: eles devem ter 75 anos ou mais. Em troca de sua vida na Terra — para onde nunca mais poderão voltar —, esses idosos recebem corpos rejuvenescidos, geneticamente modificados e prontos para a guerra. John Perry é um desses recrutas que, após o luto e a velhice, decide apostar tudo nessa nova chance de viver, descobrindo que a guerra intergaláctica é muito mais estranha e brutal do que ele imaginava.