Minha opinião: Confessar que um livro nos surpreendeu é sempre um ponto de partida fascinante. Entrar numa história de época com toques de magia pode gerar uma certa desconfiança inicial, mas a autora constrói aqui algo que vai muito além de um simples conto de fadas.
É uma narrativa que usa a fantasia como pano de fundo para explorar dinâmicas de opressão, poder e a força visceral de mulheres que a sociedade tenta silenciar.
O grande trunfo da obra é a sua protagonista, Luzia. Longe da figura imaculada da donzela, ela é uma criada constantemente maltratada e desrespeitada, que esconde um poder latente e perigoso. O que a torna tão cativante é a sua profunda humanidade: ao mesmo tempo em que se revela uma mulher fortíssima, ela também comete erros. Ela não é um arquétipo perfeito; é uma pessoa tentando sobreviver. O romance que surge na trama acompanha essa complexidade passa longe de ser meloso e é atravessado por tensão, segredos e uma constante necessidade de autopreservação.
A narrativa é hábil em construir uma atmosfera de agonia crescente. Acompanhamos Luzia ser lançada, quase contra a sua vontade, numa disputa brutal com outras pessoas talentosas para provar quem possui os maiores dons.
O suspense reside no fato de que tudo isso ocorre sob o olhar implacável da caça às bruxas. Qualquer deslize, qualquer associação da sua magia com a bruxaria, significa a morte terrível na fogueira. O livro brinca de forma brilhante com as nossas certezas: as alianças desmoronam de uma página para a outra, e nunca sabemos ao certo em quem confiar. É uma leitura tensa, que nos prende pelos sobressaltos e que entrega um final altamente satisfatório, honrando a jornada dessa mulher que toma as rédeas do próprio destino.
Sinopse do Livro
Ambientado no chamado Século de Ouro da Espanha, numa época dominada pelo medo da Inquisição, o romance O Familiar acompanha a vida de Luzia Cotado, uma humilde criada que utiliza pequenos e discretos feitiços para facilitar o seu exaustivo trabalho na cozinha. No entanto, quando a sua patroa descobre esse talento, Luzia deixa de ser uma mera serva e passa a ser exibida como uma "milagreira" para elevar o status social da família. Rapidamente, ela é atirada para um submundo perigoso de nobres ambiciosos, alquimistas e charlatões, sendo forçada a participar num torneio implacável que decidirá quem será o campeão mágico do rei. Para sobreviver a essa corte traiçoeira e esconder a sua verdadeira natureza das fogueiras da Inquisição, ela precisará de uma aliança arriscada com Guillén Pérez de Santángel, um imortal "familiar" que carrega consigo os seus próprios segredos sombrios.