segunda-feira, 18 de maio de 2026

De cada quinhentos uma alma, de Ana Paula Maia


Minha opinião: Este é o terceiro livro da Ana Paula Maia que leio — já havia passado por Assim na terra como embaixo da terra e Carvão animal —, e continuo impressionada. Acabei lendo fora da ordem cronológica de publicação porque fui pegando nas bibliotecas, mas isso não tirou em nada o impacto da leitura. A densidade característica da autora se mantém intacta aqui: é algo cinza, sujo, pesado, mas, de uma forma muito dolorosa, é também extremamente bonito. Como isso é possível?
Ao refletir sobre a obra, chego à conclusão de que a beleza está na resistência humana. Estamos falando de pessoas boas, vivas, fortes e densas, mas que são obrigadas a habitar um mundo sombrio, inundado pela maldade e por circunstâncias tão áridas que formam o verdadeiro "tapete" por onde a vida deles caminha. Esse ambiente violento acaba endurecendo essas pessoas, mesmo contra a vontade delas. É um livro sobre como o meio molda as nossas defesas e os nossos limites.
Nesta história, caminhamos, sem dúvidas, para um fim. Será o fim do mundo? Há uma doença devastadora acontecendo, uma epidemia inexplicável que faz com que todos queiram se esconder. Mas, à medida que avançamos na narrativa — que é bem rápida, porém de uma força avassaladora —, percebemos que o horror vai além do biológico. Há algo de muito mais terrível em andamento: o próprio governo está matando as pessoas. Enquanto tentam sobreviver a esse massacre oficializado, sinais secretos e inexplicáveis começam a surgir ao redor. É uma literatura brasileira contemporânea visceral, sufocante e que exige estômago, mas que recompensa com uma profunda reflexão sobre o que sobra de nós quando tudo colapsa.

Sinopse
A narrativa acompanha Edgar Wilson, um homem embrutecido que ganha a vida recolhendo carcaças de animais mortos pelas estradas e levando-as para serem dizimadas em um triturador de um grande depósito. Seu trabalho sujo e solitário é o retrato do país em que vive, mas, de repente, a realidade começa a se desintegrar de forma ainda mais macabra.
O país entra em um colapso inexplicável. Uma epidemia silenciosa e devastadora começa a dizimar a população, animais morrem subitamente, e um caos apocalíptico se instaura. Em meio ao desespero e ao isolamento, Edgar acaba se unindo ao ex-padre Tomás e ao violento Bronco Gil. Juntos, esses três anti-heróis improváveis passam a cruzar estradas abandonadas, tentando encontrar algum sentido para a barbárie. Pelo caminho, eles não enfrentam apenas o fim do mundo ou a doença, mas se deparam com um extermínio orquestrado pelas próprias instituições e figuras de poder, além de testemunharem eventos que desafiam a razão e a fé. Em um cenário onde a civilização ruiu, a única lei que impera é a da sobrevivência.

Verity, de Colleen Hoover


Minha opinião: Sabe aquele momento em que um livro está no topo de todas as listas de mais vendidos, o mundo inteiro parece estar lendo, e a curiosidade simplesmente fala mais alto? Foi exatamente o que me levou a Verity. 
Eu já havia lido uma obra anterior da autora (que também foi parar nos cinemas) e achado chatíssima, mas resolvi dar uma nova chance porque a premissa, desta vez, prometia suspense, tensão e uma atmosfera de investigação.
Infelizmente, a promessa ficou só na sinopse. A quebra de expectativa foi brutal. Em vez de um thriller com camadas psicológicas e um clima sombrio bem construído, me deparei com uma narrativa que se apoia em uma apelação sem fim. A história é inundada por cenas e mais cenas de sexo que não agregam ao desenvolvimento do mistério e parecem estar ali apenas para chocar ou preencher espaço.
O maior problema, no entanto, é a construção dos personagens, em especial a protagonista. Falta-lhe força, falta-lhe qualquer traço de densidade. É uma personagem vazia, cujas motivações e pensamentos são voltados quase que exclusivamente para o relacionamento afetivo. 
Não há elaboração, não há conflitos internos interessantes, apenas uma dependência de atitudes clichês e bobas.
Não posso negar que o livro prende a atenção — o ritmo é ágil e a autora sabe criar ganchos rápidos que te fazem querer virar a página para ver onde aquele absurdo vai parar. É inegavelmente a intenção dela. Porém, capturar a atenção é muito diferente de oferecer uma boa literatura. Para quem gosta de histórias viscerais, com personagens complexos e um suspense que desafia a inteligência, Verity é uma decepção. É um livro raso, sem profundidade emocional e que passa longe, muito longe, do tipo de leitura que realmente instiga o pensamento.

Sinopse
A trama acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora à beira da falência financeira e emocional. Sua sorte parece mudar quando ela recebe uma oferta de trabalho irrecusável: Jeremy Crawford, marido da famosa autora Verity Crawford, a contrata para terminar a série de livros de sucesso da esposa, que sofreu um grave acidente e está incapacitada de escrever.
Para entender o processo criativo de Verity e reunir os rascunhos necessários, Lowen se muda temporariamente para a casa da família Crawford. Lá, vasculhando o escritório da autora, ela encontra uma autobiografia não finalizada de Verity, um manuscrito que nunca deveria ter sido lido por ninguém. Nas páginas, Verity confessa acontecimentos perturbadores e segredos obscuros sobre sua família e o dia do acidente. À medida que Lowen lê os relatos, ela se vê cada vez mais envolvida com Jeremy e precisa decidir se revela a ele a terrível verdade sobre a mulher que ele ama, em meio a um clima de suposta ameaça dentro da própria casa.

Drácula, de Bram Stoker


Minha opinião: Quando somos bombardeados por décadas de filmes e adaptações de vampiros, é quase instintivo esperar uma narrativa frenética, cheia de ação ou de romances sobrenaturais. Ler a obra original de Bram Stoker, no entanto, foi uma quebra de expectativa fascinante. Eu não imaginava que a história seguiria por um caminho tão distinto e denso.
O que mais me surpreendeu — e me prendeu — foi o formato narrativo. O livro é inteiramente construído a partir de cartas, diários, recortes de jornais e telegramas.
 Essa escolha epistolar faz um sentido imenso para a época, mas, mais do que isso, permite um mergulho profundo no fluxo de pensamento e no amadurecimento psicológico dos personagens. Nós não temos um narrador onisciente nos dando respostas prontas; nós acompanhamos o terror se infiltrando pelos relatos íntimos de cada um. 
É um quebra-cabeça que vai se encaixando lentamente, construindo um clima sombrio que se adensa a cada página.
É brilhante acompanhar a transição emocional das vítimas e de seus aliados. Vemos pessoas racionais, presas à lógica, lidando com situações que, a princípio, parecem apenas delírios ou pesadelos inimagináveis. Aos poucos, a barreira do ceticismo se rompe e eles se dão conta de que o horror é físico, palpável e muito real. 
Entender a mitologia de como os vampiros são criados e como operam traz uma urgência angustiante para a trama.
A partir dessa aceitação, a forma como o grupo se une para arquitetar um plano e caçar o conde é um ponto alto do livro. E, por falar em caçada, foi uma delícia finalmente entender a verdadeira origem do lendário Professor Abraham Van Helsing! Depois de ver tantos filmes que o transformam em um herói de ação genérico, conhecer sua raiz na literatura — como um acadêmico brilhante, que tenta unir a ciência de ponta da sua época aos saberes ocultos para salvar seus amigos — fez com que tudo fizesse muito mais sentido. É um livro sobre o limite entre a razão e o irracional, e de como, às vezes, é preciso abraçar o inexplicável para sobreviver a ele.

Sinopse
A história tem início quando Jonathan Harker, um jovem advogado inglês, viaja até os Montes Cárpatos, na remota Transilvânia, para finalizar a compra de propriedades em Londres para um nobre excêntrico: o Conde Drácula. O que deveria ser uma viagem de negócios rotineira rapidamente se transforma em um pesadelo claustrofóbico, quando Harker percebe que é, na verdade, um prisioneiro em um castelo repleto de horrores indescritíveis.
Enquanto isso, na Inglaterra, sua noiva Mina Murray e a amiga dela, Lucy Westenra, começam a vivenciar episódios estranhos e adoecimentos inexplicáveis que coincidem com a chegada de um misterioso navio russo à costa de Whitby. Quando a medicina tradicional se mostra ineficaz para salvar Lucy de uma letargia que literalmente suga sua vida, o Dr. John Seward decide chamar seu antigo professor, o brilhante e excêntrico Abraham Van Helsing. Ao identificar a verdadeira natureza do mal que assola o grupo, Van Helsing lidera uma aliança desesperada para combater uma ameaça ancestral e impedir que o Conde Drácula espalhe sua maldição por toda a sociedade britânica.

domingo, 17 de maio de 2026

Uma delicada coleção de ausências – Aline Bei

Minha opinião: Sabe quando um livro nos tira o chão e a tristeza profunda se transforma rapidamente em uma revolta física insuportável? Foi exatamente isso que essa obra da Aline Bei me provocou. A autora tem a capacidade cirúrgica de nos desestabilizar com uma narrativa poética, mas que expõe fraturas muito cruéis. O que realmente sufoca e causa indignação na leitura não é apenas o sentimento de abandono afetivo, e sim a barbárie que se esconde na raiz dessa família.
A história é um mergulho angustiante nas gerações de mulheres dessa casa — Laura, a avó Margarida e a bisavó —, mas a verdadeira sombra que paira sobre a obra é a violência indizível do ciclo de abuso. O soco no estômago mais forte vem com a figura asquerosa de Camilo. O estupro que a jovem Laura sofre já é uma violência intolerável por si só, mas o livro nos empurra para um abismo ainda maior ao insinuar a aterrorizante possibilidade de Camilo ser o próprio pai dela.
É nesse ponto que a narrativa atinge o ápice da indignação. A ausência de Glória, a mãe que sumiu no mundo, ganha um contorno assustador e revoltante. Fica evidente que ela sofreu a mesma violência nas mãos de Camilo. A sua fuga deixa de ser lida como um simples abandono materno e revela-se como o desespero absoluto de uma mulher que foi destruída e que, tragicamente, deixou a filha vulnerável ao mesmo predador. A autora escancara como o trauma, o abuso continuado e o silêncio são heranças malditas que aprisionam essas mulheres numa repetição infernal. É uma obra essencial, dura e que nos faz querer gritar diante da crueldade e da desproteção.

Sinopse do Livro
Neste romance intenso, Aline Bei acompanha a convivência de diferentes gerações de mulheres sob o mesmo teto: a jovem Laura, que está se despedindo da infância; a avó Margarida, que a cria; e a bisavó religiosa e rígida, que traz o peso dos julgamentos para a rotina da casa. A residência é marcada pela ausência esmagadora de Glória, a mãe de Laura, que abandonou a família. Enquanto as mulheres tentam sobreviver aos embates de crenças e às próprias solidões, a obra vai revelando, sem anestesia, as camadas de violências sistêmicas e silenciosas que perpassam a linhagem familiar. A narrativa culmina na exposição de abusos sexuais brutais que conectam o passado traumático da mãe ausente ao presente devastador da jovem Laura, expondo as cicatrizes irrecuperáveis deixadas pelo abuso.

Os Malaquias – Andréa del Fuego


Minha opinião: Há leituras que nos fisgam pela expectativa e nos arrebatam exatamente por quebrarem qualquer ilusão de controle que tentamos ter sobre a narrativa. Fui ler Os Malaquias muito animada e, de fato, a história é incrivelmente envolvente. Mas ela não nos entrega um caminho fácil. Acompanhar a trajetória desses três irmãos separados pela tragédia é mergulhar em um universo onde a fronteira entre o real e o delírio simplesmente evapora. Em vários momentos me vi completamente perdida, tentando entender se a fantasia estava acontecendo de verdade ou se era apenas a forma que eles encontraram para suportar a dor.
A autora constrói cenários que funcionam como verdadeiros abismos psíquicos. Aquele lugar na serra onde ninguém podia ir, que parecia a travessia para um outro mundo, dá o tom de assombração e de perda que permeia o livro inteiro. Cada um dos irmãos absorve o trauma da orfandade de um jeito muito particular e doloroso. Vemos a loucura tomar conta do irmão mais velho, Nico, que tenta anestesiar a própria mente através do esgotamento no trabalho braçal pesado. Temos o Antônio, o irmão anão, que se coloca na história de uma maneira fascinante, encontrando o seu próprio — e inusitado — modo de fazer parte da engrenagem daquele mundo no orfanato. E, claro, a irmã caçula, Júlia, que cresce com esse vazio do desterro.
É o tipo de livro que nos deixa profundamente mexidos. Durante toda a leitura, a gente torce desesperadamente para que o sangue chame o sangue, para que eles se encontrem e que tudo acabe bem. Mas a grande força da Andréa del Fuego (e o que a torna uma autora tão espetacular) é a coragem de não fazer concessões ao clichê. Ela nos arrebata com a dura constatação de que a vida, na maioria das vezes, não é assim. Não há redenção mágica para laços que foram cortados pela raiz; há apenas a sobrevivência, com toda a sua crueza e estranheza.


Sinopse do Livro
Na mítica e isolada Serra Morena, a vida de três crianças — Nico, Antônio e Júlia — é estilhaçada quando os seus pais morrem subitamente, atingidos por um raio. Órfãos e desamparados, os irmãos Malaquias são separados e atirados para destinos completamente distintos, perdendo o convívio e as suas raízes. Nico, o mais velho, é levado para o trabalho braçal e exaustivo nas fazendas de café; Antônio, que tem nanismo, é acolhido por freiras em um orfanato; e Júlia, a caçula, é adotada por uma família rica e silenciosa. Atravessado por um realismo mágico denso, onde os mortos continuam a rondar os vivos, o romance narra a trajetória de desencontros, a solidão e as formas peculiares que cada irmão encontra para sobreviver ao abandono num mundo que lhes virou as costas.

O Alienista – Caleb Carr

Minha opinião: Há livros que moram na nossa estante e na nossa memória afetiva por anos. Eu tinha lido a continuação desta obra, O Anjo das Trevas, ainda na adolescência, e ele rapidamente se tornou um dos meus suspenses policiais favoritos. A vontade de ler O Alienista, o livro que deu origem a tudo, era imensa. Quando finalmente consegui um exemplar emprestado, o resultado foi inevitável: devorei as páginas em apenas três dias. E que leitura irretocável!
A narrativa entrega absolutamente tudo o que um suspense investigativo de altíssimo nível precisa ter. Somos atirados para a Nova York do final do século XIX, numa época em que a psicologia e a ciência forense ainda engatinhavam. Acompanhar a busca meticulosa por detalhes, a coleta das pistas e o cruzamento de informações nos deixa presos num estado de curiosidade febril para desvendar quem é o criminoso. Os personagens são incrivelmente envolventes e complexos, fazendo com que a gente não consiga parar de pensar nas suas motivações e dinâmicas mesmo depois de fechar o livro.
Mas o que realmente eleva O Alienista à categoria de obra-prima é a sua atmosfera densa, que remete muito àquela genialidade sombria de O Silêncio dos Inocentes. O foco aqui não é apenas responder "quem matou?", mas responder "por quê?". O protagonista, o Dr. Laszlo Kreizler, é um "alienista" (o termo usado na época para os primeiros psicólogos e psiquiatras criminais) focado em entender a raiz do mal. Ele precisa mergulhar na infância, nos traumas e nas repetições do assassino para criar o que hoje conhecemos como perfil criminal. É uma obra fascinante sobre a necessidade humana de tentar compreender a lógica doentia que se passa na cabeça de um psicopata. Um suspense brilhante, sombrio e muito, muito bem escrito.


Sinopse do Livro
Nova York, 1896. A cidade é sacudida por uma série de assassinatos brutais cujas vítimas são jovens garotos que se prostituem nos bordéis locais. A polícia, corrupta e despreparada, encontra-se num beco sem saída. É então que o recém-nomeado comissário de polícia, Theodore Roosevelt, decide montar uma equipe de investigação secreta e não convencional. Ele convoca o seu antigo colega de faculdade, o Dr. Laszlo Kreizler — um brilhante e controverso alienista —, o repórter criminal John Schuyler Moore e a obstinada Sara Howard, a primeira mulher a trabalhar no departamento de polícia. Juntos, eles utilizam métodos revolucionários para a época, como a análise de impressões digitais e, principalmente, a criação de um perfil psicológico detalhado do assassino, tentando entrar na mente do monstro antes que ele faça a sua próxima vítima.