sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada - Carolina Maria de Jesus


Minha Opinião
Já tinha ouvido falar dessa obra há tempos, mas acredito que só hoje, aos 40 anos, consegui ter a vivência necessária para apreciá-la. Quem acompanha minhas leituras percebe a mudança: aos 20, eu buscava romances juvenis, paixões intensas e fugas da realidade; a dureza da vida não me interessava. Hoje, meu olhar é outro. Não encaro isso como uma "evolução" — pois acredito que toda fase e todo gosto têm sua importância —, mas como um novo momento que me permite compreender a profundidade dolorosa de Quarto de Despejo.
O livro tem um ritmo que pode parecer repetitivo, e é exatamente aí que mora a sua força. A narrativa nos faz sentir na pele a falta de perspectiva que mata, aquela sensação de que o amanhã será igual ao hoje. Estamos acostumados, na ficção, a reviravoltas e meritocracia, mas aqui a fome é a protagonista constante. Carolina nos mostra que, mesmo trabalhando até a exaustão física e carregando pesos sobre-humanos, a pobreza teima em não ir embora. A inteligência brilhante da autora e seus sonhos convivem com a miséria da favela, provando que o esforço individual muitas vezes não basta para romper o ciclo da desigualdade. É uma história fortíssima, que precisa ser lida e, acima de tudo, compreendida.

Sinopse
Publicado originalmente em 1960, Quarto de Despejo reproduz o diário real de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel, negra, mãe solteira e moradora da extinta favela do Canindé, em São Paulo. Com uma linguagem crua e poética, que preserva a ortografia e a gramática originais da autora, a obra relata o cotidiano de luta pela sobrevivência, a busca incessante por comida para os três filhos e a invisibilidade social. Mais do que um relato autobiográfico, é um documento histórico e sociológico que denuncia o abismo entre a cidade rica e a periferia esquecida.

fevereiro começa aqui Tese sobre uma domesticação - Camila Sosa Villada


Minha opinião: Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.
Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.
É uma ​Encontrei este livro quase por acaso na biblioteca. Eu estava, na verdade, à procura de outra obra da autora ("O Parque das Irmãs Magníficas"), que namoro há tempos, mas acabei levando este para casa como uma forma de conhecer a escrita da Camila Sosa Villada. E que escrita! É um livro forte, sem papas na língua, que trata da sexualidade e do corpo de forma crua, mas que, ao mesmo tempo, mergulha fundo nos sentimentos, nos traumas e nas ambivalências humanas.

​Um ponto que me chamou muito a atenção foi a escolha narrativa de não dar nomes próprios aos personagens. Eles são identificados pelos papéis que ocupam ou pelas funções que desempenham naquele momento: a Atriz, o Homem, o Filho. Isso não nos deixa perdidos; pelo contrário, reforça o lugar simbólico de cada um na trama. A história gira em torno de uma família "fora do padrão" que tenta viver uma vida doméstica padrão: uma atriz travesti famosa que se casa com um advogado gay e juntos adotam uma criança soropositiva.

​É uma leitura instigante e difícil em alguns momentos, pois a autora não romantiza a realidade. Mas, acima de tudo, é uma obra sobre a humanidade compartilhada. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse

​Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.. Ao fechar o livro, a sensação que fica é que, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou classe social, todos nós estamos sujeitos às mesmas angústias: o amor, a raiva, o dia a dia e a complexidade das relações.

Sinopse
Em Tese sobre uma domesticação, Camila Sosa Villada narra a vida de uma atriz travesti de sucesso que, no auge de sua carreira e popularidade, decide firmar um pacto de vida doméstica. Ela se casa com um advogado gay rico e, juntos, adotam um menino de seis anos que vive com HIV. Aparentemente, eles constroem o cenário da família perfeita e blindada contra o preconceito. No entanto, a "domesticação" de seus corpos e desejos cobra um preço alto. Com uma prosa visceral e poética, o livro questiona se é possível renunciar à própria natureza selvagem em troca da paz burguesa e explora os limites entre o amor familiar e a solidão.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guerra do Velho - John Scalzi


Mnha opinião: A Guerra do Velho (Vol. 1)
Como fã de ficção científica, busco sempre autores capazes de criar mundos novos e situações inesperadas, e John Scalzi entrega exatamente isso neste primeiro volume. A premissa de idosos de 75 anos se alistando para ganhar corpos novos e lutar no espaço é fascinante, e a construção desse universo me prendeu bastante, especialmente as dinâmicas das batalhas e a tecnologia de transferência de consciência.
O protagonista, John Perry, segue um estilo bem clichê — aquele tipo "Rambo" que, mesmo sem experiência prévia, parece saber de tudo, supera todos os obstáculos e sempre vence. Mas isso não chega a atrapalhar porque ele é extremamente carismático e narra a história de um jeito que prende a atenção. O ponto baixo para mim foi a introdução do romance com a "cópia" da esposa falecida dele. Achei desnecessário; a trama funcionava muito bem só com a adrenalina da guerra e a exploração espacial, sem precisar desse drama afetivo no meio. Ainda assim, é uma ficção científica muito boa e sólida, que me deixou com vontade de seguir para os próximos livros, mesmo não sendo a melhor que já li na vida.

Sinopse
Em A Guerra do Velho, a humanidade finalmente chegou às estrelas, mas o espaço é um lugar hostil e disputado. Para defender as colônias humanas, a Terra recruta soldados com uma condição peculiar: eles devem ter 75 anos ou mais. Em troca de sua vida na Terra — para onde nunca mais poderão voltar —, esses idosos recebem corpos rejuvenescidos, geneticamente modificados e prontos para a guerra. John Perry é um desses recrutas que, após o luto e a velhice, decide apostar tudo nessa nova chance de viver, descobrindo que a guerra intergaláctica é muito mais estranha e brutal do que ele imaginava.

Ensaios de Despedida de Elisama Santos


Minha opinião: Iniciei a leitura de "Ensaios de Despedida", de Elisama Santos, com uma expectativa altíssima, vinda da experiência forte que tive com "Mesmo Rio", obra anterior da autora. Aqui, encontrei uma estrutura narrativa diferente, mas igualmente impactante: o livro é construído a partir de cartas de uma mãe para uma filha — cartas que a filha não lê, mas que servem como a única via possível para essa mulher elaborar o que sente.
É uma leitura intensa sobre as dualidades femininas: a vontade de partir versus a obrigação de ficar; o desejo de viver a própria vida versus a renúncia para que os outros vivam. A autora retrata com crueza como nos negamos como pessoas para caber no papel de cuidadora e como, muitas vezes, não conseguimos sair desse lugar. O livro me provocou uma reflexão profunda sobre o que fazemos no piloto automático: como o lugar do cuidado acaba ficando "marcado" em nós, mulheres, como uma segunda pele, nos aprisionando em funções que nos apagam, mesmo quando gritamos internamente por liberdade.

Sinopse
Em Ensaios de Despedida, Elisama Santos apresenta a intimidade de uma mulher que, prestes a completar 50 anos, decide rever sua trajetória através de cartas escritas para a filha e para a mãe já falecida. Através dessa correspondência unilateral, ela confessa os segredos de um casamento desgastado, a solidão acompanhada e o peso insustentável de ter vivido sempre em função das necessidades alheias. É um romance sobre o direito de mudar de rota, a complexidade das relações familiares e o custo emocional de ser a base de sustentação de todos, menos de si mesma.

Suíte Tóquio de Giovana Madalosso


Minha opinião: A leitura de "Suíte Tóquio", de Giovana Madalosso, foi uma experiência que me prendeu do início ao fim, especialmente pela estrutura narrativa que alterna entre as vozes das personagens, criando uma tensão constante. Inicialmente, a trama me despertou sentimentos ambíguos e muita raiva, não apenas pelo sequestro da criança em si, mas pela postura da mãe, Fernanda, que me pareceu extremamente relapsa. No entanto, ao longo da leitura, fui desconstruindo esse julgamento e entendendo a crítica social por trás dele: Fernanda age exatamente como um "pai tradicional" — ela sustenta a casa, prioriza a carreira e exerce o cuidado à sua maneira. Percebi que ela não seria criticada se fosse um homem desempenhando esse mesmo papel de provedor, o que escancara o peso desproporcional sobre a maternidade.
O livro explora esses papéis invertidos e a complexidade das relações de trabalho doméstico com uma força impressionante. A posição da babá, Maju, é retratada de forma dolorosa: uma mulher que não tem direito a ter vida própria, a ponto de precisar negociar uma folga para tentar engravidar. É chocante ver como o cuidado é mercantilizado e como existem abismos entre "o cuidado que não é cuidado" (a negligência afetiva) e "o cuidado que é cuidado" (o vínculo real, mesmo que em contextos perigosos). Os perigos, os encontros e os desencontros dessa história tornam a obra um estudo fascinante sobre classes sociais, afetos e a invisibilidade de quem cuida.

Sinopse
Em "Suíte Tóquio", uma babá decide levar a criança de quem cuida para um passeio não autorizado, desencadeando uma trama de suspense psicológico e crítica social. Enquanto a funcionária e a menina mergulham em uma jornada imprevisível, a narrativa alterna para o ponto de vista da mãe, uma executiva de televisão imersa em uma crise no casamento e na carreira. O desaparecimento da filha obriga a mãe a confrontar sua própria ausência e as falhas na dinâmica familiar. Giovana Madalosso constrói um thriller doméstico ágil que disseca as relações de poder, a culpa materna e as fronteiras tênues entre afeto e subordinação no Brasil contemporâneo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Os Supridores - José Falero


Minha opinião: Acabei de finalizar "Os Supridores", de José Falero, e a experiência foi intensa, especialmente porque optei pelo audiolivro: o sotaque e a oralidade mantidos ali são maravilhosos e tornam a história muito envolvente. O livro vai muito além da rotina de Pedro e Marques no supermercado; ele escancara a falácia da meritocracia, mostrando a busca brutal pelo financeiro e como, para quem nasce naquela realidade, o esforço não garante a vitória. A violência exposta na obra não é gratuita, ela aparece quase como uma sequência lógica e inevitável desse cenário de exclusão.
O que mais me marcou foi a construção psicológica do Pedro. Tive muita empatia por ele, pois não o vi apenas como um personagem revoltado, mas como alguém extremamente consciente. Ele é um rapaz de inteligência ímpar, com um potencial enorme — arrisco dizer que tem características de superdotação, mas acaba sufocado pelas dificuldades sociais e financeiras. Fica aquela reflexão martelando: imagine se ele tivesse nascido em outro berço? Sobre o desfecho, confesso que não gostei de início porque queria um final feliz para o Pedro, mas racionalmente achei ótimo e interessante. Foi coerente com a realidade dura apresentada e o fato de ele ter escrito a história foi o toque final perfeito. Que história!

Sinopse:
Ambientado na periferia de Porto Alegre, Os Supridores narra a trajetória de Pedro e Marques, dois amigos que trabalham repondo prateleiras em um grande supermercado. Pedro, um jovem de inteligência brilhante e articulação invejável, percebe com clareza cruel que o esforço braçal e a honestidade não serão suficientes para tirá-los da miséria, desmantelando a ilusão da meritocracia.
Cansados da invisibilidade e da exploração, a dupla decide "hackear" o sistema: eles resolvem entrar para o tráfico de drogas, mas aplicando uma lógica empresarial e organizada ao negócio ilícito. Com uma narrativa visceral que preserva a oralidade e o ritmo das ruas, José Falero constrói uma trama envolvente sobre amizade, o desperdício de potenciais intelectuais nas margens da sociedade e a violência como consequência lógica da desigualdade.