sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Se Adaptar – Clara Dupont-Monod


Minha opinião: Existem livros que nos atravessam pela força das suas metáforas. Se Adaptar é, sem dúvida, um deles. A narrativa acompanha o impacto da chegada de um menino com deficiência severa em uma família, mas foge de qualquer obviedade ao escolher um narrador inusitado: as pedras do quintal da casa. Testemunhas silenciosas, essas pedras narram com um carinho palpável a reconfiguração dos vínculos e a tentativa de cada membro da família de sobreviver a essa nova realidade.
O livro é dividido em três atos, focados na perspectiva dos irmãos. No primeiro, somos engolidos pelo irmão mais velho e por um amor que é tão gigante quanto doloroso. Ele assume o lugar de cuidador, movido por uma necessidade voraz de salvar o menino. É uma entrega que consome a sua própria vida. A narrativa nos faz sentir na pele o medo, o peso do preconceito do mundo e essa simbiose que o faz quase "morrer por dentro" ao tentar proteger o irmão do inevitável.
No segundo capítulo, encontramos a irmã do meio. Se o mais velho vive a fusão, ela vive o deslocamento. Com a chegada de um bebê que cresce em tamanho, mas permanece demandando um cuidado infinito, ela perde o seu lugar de atenção. A autora é brilhante ao descrever o conflito silenciado: como nomear a raiva, a ansiedade e o ciúme quando a causa é um irmão que não fala e não se move? O livro desnuda a hipocrisia de quem se recusa a associar o sofrimento da menina ao impacto da deficiência na casa. Ela se perde, assume a carga de "levantar" a família, mas a um custo emocional altíssimo.
Por fim, a terceira parte traz o filho caçula, nascido após a morte do menino. E foi aqui que a história mais me marcou. Ele chega a um ambiente já habitado pelo fantasma do que o irmão foi e do que a família viveu. Dono de uma alma de potência poética e inteligência cortante, ele sente tudo, inclusive aquilo que não viveu. É um retrato visceral de como a história pregressa de uma família se mantém, cria fantasias, impede movimentos, mas, ao mesmo tempo, força a mudança. Uma leitura intensa, bonita e absolutamente imersiva sobre os limites do cuidado e as marcas invisíveis do afeto.

Sinopse do Livro
Vencedor de prêmios literários de peso na França, como o Prêmio Femina e o Prêmio Goncourt des Lycéens, Se Adaptar explora os abalos sísmicos que o nascimento de uma criança com deficiência severa provoca na estrutura de uma família. Narrado de forma original pelas pedras do pátio da casa da família, o romance foca não nos pais, mas nas perspectivas e nos destinos dos três irmãos: o mais velho, que se funde ao bebê em um amor de extrema proteção; a irmã do meio, que se rebela diante da perda de seu lugar e da atmosfera de luto constante; e o caçula, que nasce depois para viver à sombra de um fantasma e tentar reconciliar o passado com o futuro.

Há uma lápide com o seu nome – Camilla Canuto


Minha opinião: Este é um livro sobre como as marcas ficam e continuam latejando, mantendo feridas abertas que, silenciosamente, desconfiguram as pessoas e suas relações. Ao mergulhar na intimidade dessa família, somos confrontados com uma rotina profundamente marcada pela incomunicabilidade. Acompanhamos a tensão latente entre Adelaide, que é uma mãe amargurada e cotidianamente cerceada pelo marido, e sua filha, Alice, que a incompreende.

O que torna a narrativa tão visceral é que temos acesso aos dois lados dessa dor. Sentimos a angústia de Adelaide, que teve o destino atravessado por uma gravidez indesejada antes mesmo de completar quinze anos. Vemos a sua busca por ser olhada, por encontrar algum espaço próprio em uma vida que lhe foi imposta. Ao mesmo tempo, acompanhamos Alice, que nasceu a despeito da vontade de um pai (João) que não a desejava. 
Alice tenta achar seu caminho e, fundamentalmente, anseia por ser amada em um ambiente de faltas e excessos. É palpável a agonia dessa mãe infeliz que não consegue se aproximar da filha, e o desespero da filha que esbarra nessa barreira invisível de ressentimento.
Muitas vezes, quem olha de fora enxerga apenas a superfície,  julga a mulher como chata, amargurada ou fofoqueira, mas não entende o peso e as fraturas que aquela vida carrega. Acompanhar a trajetória dessas personagens nos faz pensar que, nas tramas familiares, raramente existe o "bom" e o "mau" de forma absoluta.
 O que existe é a vida acontecendo: o sofrimento herdado, o aprendizado duro e a tentativa constante de mudar, de ficar ou de ir embora. É uma leitura que nos exige escuta para aquilo que grita no silêncio de uma casa.

Sinopse do Livro
Em seu romance de estreia, a escritora sergipana Camilla Canuto questiona o papel da mulher ao narrar o dia a dia de uma família fraturada pela falta de diálogo. A história costura os destinos de Adelaide, João e sua filha, Alice. A dinâmica do trio é selada logo no início: antes de completar quinze anos, Adelaide engravida de João, que deixa claro desde as primeiras linhas não desejar que a criança venha ao mundo. A partir desse trauma original, o livro explora de forma delicada e comovente as realidades familiares, o ressentimento da filha, a amargura da mãe e os excessos do pai, fugindo de lugares-comuns para mostrar o que se esconde no farfalhar das cortinas da intimidade.

Os Ratos – Dyonélio Machado


Minha opinião: Existem livros que lemos e livros que sentimos no corpo. Os Ratos pertence ao segundo grupo. Recebi a indicação por ser considerado um "avô" de Os Supridores, e a relação é nítida: ambos tratam da sobrevivência nas bordas de um sistema que não perdoa a falta de capital. Mas aqui, Dyonélio foca na tragédia psicológica de um fato banal: a dívida.
Acompanhar Naziazeno por apenas um dia é mergulhar em uma loucura silenciosa. Para quem já sentiu o frio na barriga de não saber como arcar com um compromisso, a narrativa é de um realismo desconfortável. É a história de quem vive no limite, "cobrindo um santo para descobrir outro", em um ciclo onde o alívio de pagar uma conta já nasce morto pela dívida que se fez para quitá-la.
O que mais me tocou foi a descrição da vergonha. O ato de pedir emprestado, o desvio do olhar, a dependência do outro e os devaneios que beiram o delírio. Naziazeno transita entre o desconforto da humilhação e o conforto efêmero de uma possibilidade de dinheiro, em um fluxo de pensamento que nos transmite toda a sua agonia.
É uma escrita poderosa que transforma o dinheiro em um personagem fantasmagórico. Ao final, fica a reflexão sobre como a falta de recursos molda a nossa autonomia e nossos vínculos. É uma descoberta literária visceral: um livro sobre o ontem que, infelizmente, diz muito sobre o hoje.

Sinopse
Clássico do modernismo brasileiro, o livro narra 24 horas da vida de Naziazeno Barbosa, um funcionário público de baixo escalão que precisa desesperadamente de 53 mil réis para pagar a dívida com o leiteiro, sob o risco de ficar sem o suprimento para sua família. A trama se resume a essa jornada física e mental pelas ruas de Porto Alegre: a busca incessante por um empréstimo, os encontros humilhantes, as esperanças que se desfazem e a sensação de ser perseguido por uma força invisível, enquanto o tempo urge e a dignidade se esfarela.

O Impulso – Won-pyung Sohn

Minha opinião: Ler O Impulso é um exercício de paciência e de espelhamento.
 Após a experiência sensível com Amêndoas, mergulhei nesta nova obra de Won-pyung Sohn com a expectativa de encontrar uma trajetória clássica de ascensão. Mas o que a autora nos entrega é algo muito mais visceral e, por vezes, incômodo: a resistência da realidade.
O protagonista, Kim, não é um herói de transformação rápida. Ele é o retrato da repetição. Ao acompanhá-lo, somos confrontados com a dificuldade genuína de romper com ciclos de desânimo. O livro toca em feridas abertas sobre o desejo e a autonomia: até onde vai a nossa escolha quando o mundo ao redor parece ruir?

Confesso que, como leitora, houve momentos de uma certa decepção — não pela escrita, que é ágil e precisa, mas pelo realismo da trama. Queremos que o personagem acerte, que os sonhos se realizem e que o apoio apareça de forma mágica. Queremos o clichê do "final feliz" porque ele nos conforta. 
No entanto, Sohn escolhe nos mostrar que a mudança muitas vezes é lenta, feia e cheia de retrocessos.
A obra me fez refletir profundamente sobre o peso das nossas expectativas. É um livro rápido de ler, mas que demora a ser processado. Ele nos lembra que, embora os sonhos nem sempre se concretizem da forma que planejamos, a tentativa de mudar a própria postura diante da vida , literalmente e simbolicamente, já é um ato de coragem. É uma leitura que não oferece respostas prontas, mas que sustenta a ambivalência entre o fracasso e a persistência de um modo muito honesto.

Sinopse
O livro nos apresenta Seong-gon Kim, um homem de quase cinquenta anos que sente que sua vida é um acúmulo de fracassos. Após várias tentativas de negócios que deram errado e um distanciamento doloroso de sua família, ele chega ao seu limite e decide desistir de tudo. No entanto, após uma tentativa de suicídio frustrada, ele encontra uma mensagem que o instiga a mudar apenas uma pequena coisa: sua postura física. A narrativa acompanha esse esforço hercúleo de Kim para alterar seus hábitos mais enraizados, endireitar as costas e, quem sabe, encontrar um novo sentido para sua existência em um mundo que parece não ter lugar para ele.


sábado, 14 de fevereiro de 2026

As Miniaturas - Andréa del Fuego

Minha Opinião
Encontrei este livro quase por acaso no Sesc, procurando por outra obra da autora (A Pediatra), e acabei devorando-o em uma única manhã. A leitura é impressionantemente fluida; a escrita da Andréa del Fuego nos carrega com uma leveza que contrasta com a estranheza da trama. Confesso que fechei o livro sem ter certeza se entendi tudo racionalmente, mas percebi que a obra não pede explicação lógica, ela pede entrega.
O livro opera na atmosfera do "Oneiro", como se fosse um sonho, ou o inconsciente, um lugar onde ninguém tem o controle e onde somos guiados por forças misteriosas. O que mais me prendeu, no entanto, foi a dinâmica familiar disfuncional: a mãe e o filho vivem uma relação de ambivalência, querendo partir mas precisando ficar, "se atravessando" o tempo todo. É uma convivência onde todos parecem fingir que não veem a realidade para conseguirem permanecer juntos. É uma obra onírica, misteriosa e que nos deixa com a sensação de termos acordado de um sonho vívido e estranho.

Sinopse
Em As Miniaturas, Andréa del Fuego constrói um romance que desafia a realidade concreta. A trama se passa em um edifício misterioso, próximo ao Oneiro (o centro dos sonhos), onde funcionários trabalham para reduzir o mundo a maquetes e miniaturas. Nesse cenário onde as leis da física e da vida cotidiana parecem suspensas, acompanhamos personagens que lidam com a fronteira tênue entre a vigília, o sono e a morte. É uma narrativa sobre o desejo de controle sobre a vida e a inevitabilidade de sermos guiados pelo nosso próprio inconsciente.

Uma Noite na Livraria Morisaki - Satoshi Yagisawa


Minha Opinião
Ler literatura japonesa contemporânea, especialmente deste gênero, é entrar em uma frequência diferente: há uma inocência e um respeito onipresentes que marcam o tom da narrativa. Uma Noite na Livraria Morisaki é um livro "fofo", sem sobressaltos, sem grandes dramas ou emoções desmedidas. Ele discorre sobre a beleza sutil da vida normal.
Para mim, o ponto alto foi observar a cultura japonesa nessas entrelinhas: a educação extrema, a quantidade de pedidos de desculpas e, principalmente, a dificuldade dos personagens em verbalizar sentimentos. Há um cuidado imenso em não dizer algo que magoe ou incomode o outro, o que cria diálogos contidos, mas cheios de significado. Confesso que gostei mais do primeiro livro (Meus Dias na Livraria Morisaki), que achei mais envolvente, mas esta continuação cumpre bem o papel de ser uma leitura leve, ideal para passar o tempo e desopilar de leituras mais pesadas.

Sinopse
Nesta sequência de Meus Dias na Livraria Morisaki, retornamos ao famoso bairro de livrarias de Tóquio, Jinbōchō. Takako, que encontrou refúgio na livraria do tio Satoru no primeiro livro, agora segue sua vida, mas continua orbitando aquele universo de papel e tinta. Desta vez, a trama se aprofunda na relação entre o tio Satoru e sua esposa, Momoko, revelando mais sobre o passado misterioso dela e as dinâmicas desse casal peculiar. Entre cafés, passeios pelas ruas cheias de livros usados e conversas silenciosas, a obra explora os laços familiares, o reencontro consigo mesmo e o conforto que só uma livraria antiga pode oferecer.