sábado, 2 de maio de 2026

O Familiar – Leigh Bardugo

Minha opinião: Confessar que um livro nos surpreendeu é sempre um ponto de partida fascinante. Entrar numa história de época com toques de magia pode gerar uma certa desconfiança inicial, mas a autora constrói aqui algo que vai muito além de um simples conto de fadas.
 É uma narrativa que usa a fantasia como pano de fundo para explorar dinâmicas de opressão, poder e a força visceral de mulheres que a sociedade tenta silenciar.
O grande trunfo da obra é a sua protagonista, Luzia. Longe da figura imaculada da donzela, ela é uma criada constantemente maltratada e desrespeitada, que esconde um poder latente e perigoso. O que a torna tão cativante é a sua profunda humanidade: ao mesmo tempo em que se revela uma mulher fortíssima, ela também comete erros. Ela não é um arquétipo perfeito; é uma pessoa tentando sobreviver. O romance que surge na trama acompanha essa complexidade passa longe de ser meloso e é atravessado por tensão, segredos e uma constante necessidade de autopreservação.
A narrativa é hábil em construir uma atmosfera de agonia crescente. Acompanhamos Luzia ser lançada, quase contra a sua vontade, numa disputa brutal com outras pessoas talentosas para provar quem possui os maiores dons. 
O suspense reside no fato de que tudo isso ocorre sob o olhar implacável da caça às bruxas. Qualquer deslize, qualquer associação da sua magia com a bruxaria, significa a morte terrível na fogueira. O livro brinca de forma brilhante com as nossas certezas: as alianças desmoronam de uma página para a outra, e nunca sabemos ao certo em quem confiar. É uma leitura tensa, que nos prende pelos sobressaltos e que entrega um final altamente satisfatório, honrando a jornada dessa mulher que toma as rédeas do próprio destino.

Sinopse do Livro
Ambientado no chamado Século de Ouro da Espanha, numa época dominada pelo medo da Inquisição, o romance O Familiar acompanha a vida de Luzia Cotado, uma humilde criada que utiliza pequenos e discretos feitiços para facilitar o seu exaustivo trabalho na cozinha. No entanto, quando a sua patroa descobre esse talento, Luzia deixa de ser uma mera serva e passa a ser exibida como uma "milagreira" para elevar o status social da família. Rapidamente, ela é atirada para um submundo perigoso de nobres ambiciosos, alquimistas e charlatões, sendo forçada a participar num torneio implacável que decidirá quem será o campeão mágico do rei. Para sobreviver a essa corte traiçoeira e esconder a sua verdadeira natureza das fogueiras da Inquisição, ela precisará de uma aliança arriscada com Guillén Pérez de Santángel, um imortal "familiar" que carrega consigo os seus próprios segredos sombrios.

Carvão Animal – Ana Paula Maia

Minja opinião: Ler Carvão Animal foi mais uma confirmação do talento estonteante da Ana Paula Maia. Depois da experiência de leitura com Assim na Terra Como Embaixo da Terra, eu já esperava uma narrativa forte e visceral. E foi isso mesmo o que encontrei, mas atravessado por um sentimento que me surpreendeu muito: é uma história de uma crueza imensa, sim, mas pontuada por uma leveza estranha e muito bela.
A genialidade da autora está em transformar profissões que lidam com o horror absoluto em algo trivial da rotina. Acompanhamos a vida de dois irmãos cujas rotinas giram em torno do fogo e da tragédia: de um lado, Ernesto Wesley, um bombeiro incansável marcado por situações drásticas e tristes, que se habituou aos gritos e ao desespero da morte. Do outro, o seu irmão, Ronivon, que trabalha com os fornos de um crematório, apagando literalmente os vestígios físicos de quem já partiu.
Olhando de fora, parece o cenário perfeito para encontrar personagens embrutecidos, sem empatia e sem medo de nada. Mas não é verdade de jeito nenhum. A humanidade pulsa ali dentro. A cena da vizinha que tenta envenenar o cachorro deles é a prova disso: enquanto o mundo ao redor age com maldade, os irmãos, que enfrentam o inferno no trabalho todos os dias, continuam a tentar falar com ela, dispostos ao diálogo e ao entendimento.
A experiência de leitura foi muito sensorial. Eu sentia a história assumir um tom cinza na minha cabeça, a cor das cinzas, do cansaço e do asfalto. Eu imaginava perfeitamente cada cenário e os corpos carbonizados, mas com pessoas no centro de tudo que são intensamente reais, vivas e boas. Ana Paula Maia sabe como ninguém retirar a humanidade e o lirismo de lugares onde as pessoas são muitas vezes tratadas apenas como "refugo" social. É um livro duro que, ironicamente, reconforta.

Sinopse do Livro
Em Carvão Animal, Ana Paula Maia submerge-nos na realidade asfixiante de homens que vivem nas margens da sociedade, executando os "trabalhos sujos" de que ninguém quer cuidar. A trama centra-se na vida de dois irmãos cujas funções são indissociáveis do fogo: Ernesto Wesley atua como bombeiro num combate diário contra as chamas e o desespero, enquanto Ronivon cuida da incineração de corpos num crematório, reduzindo a existência física a ossos e a fragmentos de carvão animal. A eles junta-se ainda a figura do mineiro Edgar Wilson. Presos a esta dura rotina e a um quotidiano desolador que alterna entre um frio pesado e o calor dos fornos, os personagens tentam manter a sua dignidade, forjando formas amorais, mas profundamente humanas, de sobreviver perante a brutalidade e a falta de perspetivas de um mundo cinzento.

A Pediatra – Andréa del Fuego

Minha opinião: Há livros que nos confortam e há livros que nos causam um profundo estranhamento. A Pediatra pertence, sem dúvida, à segunda categoria. 
Confesso que terminei a leitura habitada por uma forte ambivalência: nem sei direito o que achei, gostei e não gostei. E o que incomoda tanto não é a escrita da autora, mas a crueza desconcertante e cínica da sua protagonista, Cecília.
Logo de início, somos confrontados com uma ironia brutal: uma médica neonatologista e pediatra que não tem a menor vocação para o ofício, não se interessa pela infância e não suporta criar vínculos. Ela é o retrato fiel de uma mediocridade profissional que, infelizmente, conhecemos tão bem na vida real. É o tipo de pessoa que escolhe a carreira por inércia, dinheiro ou status familiar, oferecendo o mínimo indispensável. No consultório, ela atende as chamadas, certifica-se de que o bebé está vivo e passa a mesma receita padronizada para todos, forçando indiretamente os pacientes a procurarem outro profissional por falta de orientação. 
Dá raiva, dá nervoso, mas é uma figura perturbadoramente realista.
O grande trunfo do livro, e também a sua maior armadilha para as nossas expectativas, é que ficamos aguardando uma redenção moral ou uma reviravolta ética que justifique a personagem. Esperamos que, em algum momento, ela desenvolva empatia pela empregada grávida ou pelas crianças que atende.
 Mas a autora não faz concessões ao clichê literário. A protagonista é movida por um egocentrismo tão calcificado que chega a dar medo. O outro simplesmente não tem lugar na sua vida, seja na esfera profissional ou na intimidade.
Tudo isso fica evidente na teia paradoxal das suas relações pessoais. É estranho ver como certas pessoas ainda gravitam à volta dela, como é o caso do seu amante. Quando ela desenvolve aquilo que acredita ser, pela primeira vez, um sentimento "diferente" pelo filho desse amante, rapidamente percebemos que não se trata de afeto genuíno. É apenas o reflexo do seu próprio narcisismo e do desejo de moldar o mundo à sua vontade. Cecília não é uma "vilã" caricata e diabólica; é apenas uma mulher muito comum e incapaz de investir na alteridade. Um livro instigante para pensar sobre as relações utilitaristas e a ausência absoluta de limites éticos e emocionais.

Sinopse do Livro
Em A Pediatra, acompanhamos a história de Cecília, uma médica neonatologista absolutamente desprovida de instinto maternal ou apreço pelas crianças e pelos pais que frequentam o seu consultório. A sua escolha profissional deu-se mais por comodidade e pela inércia de seguir os passos do pai médico do que por vocação genuína. A rotina asséptica e pragmática de Cecília — que envolve o seu trabalho apático e a forma fria como lida com as pessoas ao seu redor, incluindo a sua empregada doméstica, Deise, que está grávida — sofre um abalo quando ela começa a envolver-se com Celso, um homem casado. Curiosamente, é o filho desse amante, o menino Bruninho, em cujo nascimento ela esteve presente como neonatologista, que acaba por despertar na médica uma obsessão inédita e sentimentos desconcertantes. Escrito em primeira pessoa, com uma linguagem rápida e crua, o romance oferece um acesso sem filtros à mente cínica e julgadora da protagonista.

Tudo pode ser roubado – Giovana Madalosso

Minha opinião: Começo esta resenha confessando uma pequena contradição: por mais que eu busque narrativas que fujam dos finais mastigados, quase desejei que a história desaguasse naquele velho clichê de uma linda história de amor. Mas a genialidade de Giovana Madalosso está justamente em nos confrontar com a realidade das relações, sem as amenidades reconfortantes.

Para começar, um detalhe literário brilhante, se você tentou lembrar o nome da protagonista e não conseguiu, é porque ela simplesmente não tem nome na obra. Esse anonimato não é por acaso; é a marca registrada de alguém que desliza pela vida e pelas casas dos outros. Ela foge completamente daquela figura fofa, delicada e boazinha. É uma mulher que age, que rouba, que sobrevive no caos urbano e, o mais interessante de tudo, que vive na solidão e gosta genuinamente de estar lá.
Apesar dessa armadura, é nessa jornada furtiva que ela esbarra em encontros de amizade e na teia complexa das projeções humanas. O livro me fez refletir longamente sobre como podemos ser qualquer coisa que as pessoas desejem ver. O desejo tem essa capacidade de nos cegar; queremos tanto algo que ficamos fantasiando e deixamos de ver a pessoa real que está bem na frente do nosso nariz.
A relação dela com o professor ilustra isso de forma impecável. Ele não interage com quem ela é de verdade, mas com a idealização que criou. Ela se torna aquilo que ele deseja porque ele se recusa a perceber a realidade. O romance disseca maravilhosamente esse movimento: como as pessoas projetam os seus vazios umas nas outras e como os lugares que ocupamos muitas vezes existem apenas na fantasia de quem nos olha. Um livro que engana pelo ritmo ágil, mas que entrega uma elaboração fina sobre limites e desejos.

Sinopse do Livro
A protagonista anônima de Tudo pode ser roubado leva uma vida dupla na cidade de São Paulo. Oficialmente, trabalha como garçonete num restaurante bastante conhecido na região da Avenida Paulista. É nas horas vagas, no entanto, que ela faz as suas verdadeiras economias: aproveitando encontros fortuitos e casuais nas casas de homens e mulheres, ela furta roupas de grife e objetos de valor. A sua rotina sofre uma guinada quando um desconhecido a aborda com uma proposta altamente lucrativa e perigosa. A missão é roubar uma cobiçada primeira edição de O Guarani, de 1857. O alvo do furto é um professor universitário que arrematou a relíquia num leilão e se recusa veementemente a vendê-la. Para se aproximar da obra, a ladra precisará se infiltrar na vida do professor, mergulhando cada vez mais num submundo onde afetos, ilusões e aparências também são alvo de roub

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Se Adaptar – Clara Dupont-Monod


Minha opinião: Existem livros que nos atravessam pela força das suas metáforas. Se Adaptar é, sem dúvida, um deles. A narrativa acompanha o impacto da chegada de um menino com deficiência severa em uma família, mas foge de qualquer obviedade ao escolher um narrador inusitado: as pedras do quintal da casa. Testemunhas silenciosas, essas pedras narram com um carinho palpável a reconfiguração dos vínculos e a tentativa de cada membro da família de sobreviver a essa nova realidade.
O livro é dividido em três atos, focados na perspectiva dos irmãos. No primeiro, somos engolidos pelo irmão mais velho e por um amor que é tão gigante quanto doloroso. Ele assume o lugar de cuidador, movido por uma necessidade voraz de salvar o menino. É uma entrega que consome a sua própria vida. A narrativa nos faz sentir na pele o medo, o peso do preconceito do mundo e essa simbiose que o faz quase "morrer por dentro" ao tentar proteger o irmão do inevitável.
No segundo capítulo, encontramos a irmã do meio. Se o mais velho vive a fusão, ela vive o deslocamento. Com a chegada de um bebê que cresce em tamanho, mas permanece demandando um cuidado infinito, ela perde o seu lugar de atenção. A autora é brilhante ao descrever o conflito silenciado: como nomear a raiva, a ansiedade e o ciúme quando a causa é um irmão que não fala e não se move? O livro desnuda a hipocrisia de quem se recusa a associar o sofrimento da menina ao impacto da deficiência na casa. Ela se perde, assume a carga de "levantar" a família, mas a um custo emocional altíssimo.
Por fim, a terceira parte traz o filho caçula, nascido após a morte do menino. E foi aqui que a história mais me marcou. Ele chega a um ambiente já habitado pelo fantasma do que o irmão foi e do que a família viveu. Dono de uma alma de potência poética e inteligência cortante, ele sente tudo, inclusive aquilo que não viveu. É um retrato visceral de como a história pregressa de uma família se mantém, cria fantasias, impede movimentos, mas, ao mesmo tempo, força a mudança. Uma leitura intensa, bonita e absolutamente imersiva sobre os limites do cuidado e as marcas invisíveis do afeto.

Sinopse do Livro
Vencedor de prêmios literários de peso na França, como o Prêmio Femina e o Prêmio Goncourt des Lycéens, Se Adaptar explora os abalos sísmicos que o nascimento de uma criança com deficiência severa provoca na estrutura de uma família. Narrado de forma original pelas pedras do pátio da casa da família, o romance foca não nos pais, mas nas perspectivas e nos destinos dos três irmãos: o mais velho, que se funde ao bebê em um amor de extrema proteção; a irmã do meio, que se rebela diante da perda de seu lugar e da atmosfera de luto constante; e o caçula, que nasce depois para viver à sombra de um fantasma e tentar reconciliar o passado com o futuro.

Há uma lápide com o seu nome – Camilla Canuto


Minha opinião: Este é um livro sobre como as marcas ficam e continuam latejando, mantendo feridas abertas que, silenciosamente, desconfiguram as pessoas e suas relações. Ao mergulhar na intimidade dessa família, somos confrontados com uma rotina profundamente marcada pela incomunicabilidade. Acompanhamos a tensão latente entre Adelaide, que é uma mãe amargurada e cotidianamente cerceada pelo marido, e sua filha, Alice, que a incompreende.

O que torna a narrativa tão visceral é que temos acesso aos dois lados dessa dor. Sentimos a angústia de Adelaide, que teve o destino atravessado por uma gravidez indesejada antes mesmo de completar quinze anos. Vemos a sua busca por ser olhada, por encontrar algum espaço próprio em uma vida que lhe foi imposta. Ao mesmo tempo, acompanhamos Alice, que nasceu a despeito da vontade de um pai (João) que não a desejava. 
Alice tenta achar seu caminho e, fundamentalmente, anseia por ser amada em um ambiente de faltas e excessos. É palpável a agonia dessa mãe infeliz que não consegue se aproximar da filha, e o desespero da filha que esbarra nessa barreira invisível de ressentimento.
Muitas vezes, quem olha de fora enxerga apenas a superfície,  julga a mulher como chata, amargurada ou fofoqueira, mas não entende o peso e as fraturas que aquela vida carrega. Acompanhar a trajetória dessas personagens nos faz pensar que, nas tramas familiares, raramente existe o "bom" e o "mau" de forma absoluta.
 O que existe é a vida acontecendo: o sofrimento herdado, o aprendizado duro e a tentativa constante de mudar, de ficar ou de ir embora. É uma leitura que nos exige escuta para aquilo que grita no silêncio de uma casa.

Sinopse do Livro
Em seu romance de estreia, a escritora sergipana Camilla Canuto questiona o papel da mulher ao narrar o dia a dia de uma família fraturada pela falta de diálogo. A história costura os destinos de Adelaide, João e sua filha, Alice. A dinâmica do trio é selada logo no início: antes de completar quinze anos, Adelaide engravida de João, que deixa claro desde as primeiras linhas não desejar que a criança venha ao mundo. A partir desse trauma original, o livro explora de forma delicada e comovente as realidades familiares, o ressentimento da filha, a amargura da mãe e os excessos do pai, fugindo de lugares-comuns para mostrar o que se esconde no farfalhar das cortinas da intimidade.