Minha opinião: Este é um livro sobre como as marcas ficam e continuam latejando, mantendo feridas abertas que, silenciosamente, desconfiguram as pessoas e suas relações. Ao mergulhar na intimidade dessa família, somos confrontados com uma rotina profundamente marcada pela incomunicabilidade. Acompanhamos a tensão latente entre Adelaide, que é uma mãe amargurada e cotidianamente cerceada pelo marido, e sua filha, Alice, que a incompreende.
O que torna a narrativa tão visceral é que temos acesso aos dois lados dessa dor. Sentimos a angústia de Adelaide, que teve o destino atravessado por uma gravidez indesejada antes mesmo de completar quinze anos. Vemos a sua busca por ser olhada, por encontrar algum espaço próprio em uma vida que lhe foi imposta. Ao mesmo tempo, acompanhamos Alice, que nasceu a despeito da vontade de um pai (João) que não a desejava.
Alice tenta achar seu caminho e, fundamentalmente, anseia por ser amada em um ambiente de faltas e excessos. É palpável a agonia dessa mãe infeliz que não consegue se aproximar da filha, e o desespero da filha que esbarra nessa barreira invisível de ressentimento.
Muitas vezes, quem olha de fora enxerga apenas a superfície, julga a mulher como chata, amargurada ou fofoqueira, mas não entende o peso e as fraturas que aquela vida carrega. Acompanhar a trajetória dessas personagens nos faz pensar que, nas tramas familiares, raramente existe o "bom" e o "mau" de forma absoluta.
O que existe é a vida acontecendo: o sofrimento herdado, o aprendizado duro e a tentativa constante de mudar, de ficar ou de ir embora. É uma leitura que nos exige escuta para aquilo que grita no silêncio de uma casa.
Sinopse do Livro
Em seu romance de estreia, a escritora sergipana Camilla Canuto questiona o papel da mulher ao narrar o dia a dia de uma família fraturada pela falta de diálogo. A história costura os destinos de Adelaide, João e sua filha, Alice. A dinâmica do trio é selada logo no início: antes de completar quinze anos, Adelaide engravida de João, que deixa claro desde as primeiras linhas não desejar que a criança venha ao mundo. A partir desse trauma original, o livro explora de forma delicada e comovente as realidades familiares, o ressentimento da filha, a amargura da mãe e os excessos do pai, fugindo de lugares-comuns para mostrar o que se esconde no farfalhar das cortinas da intimidade.
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