Minha opinião: Existem livros que lemos e livros que sentimos no corpo. Os Ratos pertence ao segundo grupo. Recebi a indicação por ser considerado um "avô" de Os Supridores, e a relação é nítida: ambos tratam da sobrevivência nas bordas de um sistema que não perdoa a falta de capital. Mas aqui, Dyonélio foca na tragédia psicológica de um fato banal: a dívida.
Acompanhar Naziazeno por apenas um dia é mergulhar em uma loucura silenciosa. Para quem já sentiu o frio na barriga de não saber como arcar com um compromisso, a narrativa é de um realismo desconfortável. É a história de quem vive no limite, "cobrindo um santo para descobrir outro", em um ciclo onde o alívio de pagar uma conta já nasce morto pela dívida que se fez para quitá-la.
O que mais me tocou foi a descrição da vergonha. O ato de pedir emprestado, o desvio do olhar, a dependência do outro e os devaneios que beiram o delírio. Naziazeno transita entre o desconforto da humilhação e o conforto efêmero de uma possibilidade de dinheiro, em um fluxo de pensamento que nos transmite toda a sua agonia.
É uma escrita poderosa que transforma o dinheiro em um personagem fantasmagórico. Ao final, fica a reflexão sobre como a falta de recursos molda a nossa autonomia e nossos vínculos. É uma descoberta literária visceral: um livro sobre o ontem que, infelizmente, diz muito sobre o hoje.
Sinopse
Clássico do modernismo brasileiro, o livro narra 24 horas da vida de Naziazeno Barbosa, um funcionário público de baixo escalão que precisa desesperadamente de 53 mil réis para pagar a dívida com o leiteiro, sob o risco de ficar sem o suprimento para sua família. A trama se resume a essa jornada física e mental pelas ruas de Porto Alegre: a busca incessante por um empréstimo, os encontros humilhantes, as esperanças que se desfazem e a sensação de ser perseguido por uma força invisível, enquanto o tempo urge e a dignidade se esfarela.
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