domingo, 17 de maio de 2026

Escrevo seu nome no arroz (Caetano Romão)


Minha opinião: Sabe aquele tipo de livro que nos suga para dentro de um vórtice e nos faz duvidar da nossa própria compreensão da realidade? Escrevo seu nome no arroz é exatamente isso. A leitura é tão intensa, e a atmosfera de confusão é tão bem arquitetada, que em vários momentos me peguei pensando: "Será que eu entendi direito o que está acontecendo aqui?". 
E a verdade brilhante é que o autor não quer que a gente entenda tudo de forma linear. Ele quer que a gente sinta na pele o que é perder as amarras com o mundo real.
A narrativa acompanha dois irmãos órfãos isolados numa área rural. O mais velho, Simão, sempre foi a figura de proteção do caçula, que é gago e nos empresta a sua voz (ou o seu pensamento acelerado) para narrar a história. A genialidade do livro explode quando a lógica dessa relação de cuidado se inverte. Eles começam a ouvir vozes vindas da terra, e Simão passa a ser devorado por um "mal invisível", uma loucura que o descola da realidade.
É aí que o texto mexe perigosamente com a nossa cabeça. Como estamos presos na perspectiva desse irmão mais novo, as fronteiras entre o que é o luto, o que é o sobrenatural, o que é realismo mágico e o que é puro delírio simplesmente derretem. 
Fica impossível saber se estamos testemunhando eventos mágicos de uma terra mística ou o colapso mental de dois sujeitos isolados (uma espécie de delírio compartilhado) tentando dar contorno ao trauma da perda da mãe.
Caetano Romão articula a desorganização da mente com uma linguagem poética e implacável. É um livro que nos exige estofo para sustentar a ambivalência do início ao fim. Terminei a última página com a sensação deliciosa e agoniante de ter vivido uma psicose literária. Um mergulho denso e muito bem escrito nos limites da razão.

Sinopse do Livro
Em uma cidade rural de terra vermelha, dois irmãos acabam de enterrar a mãe. Simão, o mais velho, é brigão e sempre assumiu o papel de proteger o caçula das hostilidades do mundo. O menor — que carrega o seu nome gravado num grão de arroz como amuleto — é gago e narra a história através de capítulos curtos, conduzindo-nos pelo seu fluxo de pensamento. A dinâmica de sobrevivência entre os dois é violentamente sacudida quando eles começam a escutar vozes inexplicáveis vindas do ventre da terra. A partir desse momento, Simão começa a sucumbir a um padecimento psíquico e invisível, forçando o irmão mais novo e sensível a assumir o papel de cuidador da casa e da sanidade de ambos. A obra é uma mistura potente de oralidade do interior, feitiços populares e um mergulho visceral nos abismos da mente.

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