Minha opinião: Há leituras que nos fisgam pela expectativa e nos arrebatam exatamente por quebrarem qualquer ilusão de controle que tentamos ter sobre a narrativa. Fui ler Os Malaquias muito animada e, de fato, a história é incrivelmente envolvente. Mas ela não nos entrega um caminho fácil. Acompanhar a trajetória desses três irmãos separados pela tragédia é mergulhar em um universo onde a fronteira entre o real e o delírio simplesmente evapora. Em vários momentos me vi completamente perdida, tentando entender se a fantasia estava acontecendo de verdade ou se era apenas a forma que eles encontraram para suportar a dor.
A autora constrói cenários que funcionam como verdadeiros abismos psíquicos. Aquele lugar na serra onde ninguém podia ir, que parecia a travessia para um outro mundo, dá o tom de assombração e de perda que permeia o livro inteiro. Cada um dos irmãos absorve o trauma da orfandade de um jeito muito particular e doloroso. Vemos a loucura tomar conta do irmão mais velho, Nico, que tenta anestesiar a própria mente através do esgotamento no trabalho braçal pesado. Temos o Antônio, o irmão anão, que se coloca na história de uma maneira fascinante, encontrando o seu próprio — e inusitado — modo de fazer parte da engrenagem daquele mundo no orfanato. E, claro, a irmã caçula, Júlia, que cresce com esse vazio do desterro.
É o tipo de livro que nos deixa profundamente mexidos. Durante toda a leitura, a gente torce desesperadamente para que o sangue chame o sangue, para que eles se encontrem e que tudo acabe bem. Mas a grande força da Andréa del Fuego (e o que a torna uma autora tão espetacular) é a coragem de não fazer concessões ao clichê. Ela nos arrebata com a dura constatação de que a vida, na maioria das vezes, não é assim. Não há redenção mágica para laços que foram cortados pela raiz; há apenas a sobrevivência, com toda a sua crueza e estranheza.
Sinopse do Livro
Na mítica e isolada Serra Morena, a vida de três crianças — Nico, Antônio e Júlia — é estilhaçada quando os seus pais morrem subitamente, atingidos por um raio. Órfãos e desamparados, os irmãos Malaquias são separados e atirados para destinos completamente distintos, perdendo o convívio e as suas raízes. Nico, o mais velho, é levado para o trabalho braçal e exaustivo nas fazendas de café; Antônio, que tem nanismo, é acolhido por freiras em um orfanato; e Júlia, a caçula, é adotada por uma família rica e silenciosa. Atravessado por um realismo mágico denso, onde os mortos continuam a rondar os vivos, o romance narra a trajetória de desencontros, a solidão e as formas peculiares que cada irmão encontra para sobreviver ao abandono num mundo que lhes virou as costas.
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