domingo, 17 de maio de 2026

​O Avesso da Pele – Jeferson Tenório


Minha opinião: Há livros que lemos por curiosidade e há livros que nos engolem. A minha vontade de ler O Avesso da Pele surgiu, confesso, impulsionada por todo o reboliço e pelas tentativas absurdas de censura sob a justificativa de conter "cenas inapropriadas". Mas, ao mergulhar na leitura, a constatação é imediata: de inapropriado este livro não tem absolutamente nada. Ele é, na verdade, dolorosamente apropriado. O verdadeiro incômodo que ele gera não vem de palavras ou cenas isoladas, mas da coragem de escancarar uma realidade que o Brasil insiste em varrer para debaixo do tapete.

A narrativa nos é entregue pela voz de Pedro, um jovem que perde o pai, Henrique, assassinado numa abordagem policial desastrosa. A partir desse luto, o filho empreende uma jornada de reconstrução da história desse pai. E o que a narrativa nos mostra, de forma implacável, é que a vida de Henrique — e a de Pedro — é inteiramente permeada e definida pela cor da pele. É um livro sobre como o racismo não é apenas um evento isolado, mas a própria atmosfera em que se respira.

A genialidade de Jeferson Tenório está em traduzir o racismo estrutural para o cotidiano íntimo e psicológico. Ele nos faz sentir na pele o que quem não é negro muitas vezes não consegue nomear: o peso dos olhares, a necessidade de estar sempre justificando a própria existência, o risco de ser confundido com um bandido simplesmente por andar na rua, e as humilhações sistêmicas das abordagens policiais. A obra constrói uma atmosfera densa de medo, preocupação e uma sensação crônica de inadequação. É uma leitura riquíssima e intensa, que nos sufoca ao mostrar como a violência racial destrói vínculos, encarcera subjetividades e rouba o direito mais básico de um ser humano: o de simplesmente existir sem pedir desculpas.

Sinopse do Livro
Vencedor do Prêmio Jabuti, O Avesso da Pele conta a história de Pedro, um jovem negro cuja vida é fraturada pela morte do pai, Henrique, um professor de literatura da rede pública de Porto Alegre, assassinado em uma abordagem policial violenta e racista. Após a tragédia, Pedro busca resgatar o passado da família, remontando a trajetória do pai, a relação de Henrique com a sua mãe (Martha) e a própria infância. Por meio dessa investigação afetiva e dolorosa, o romance tece uma crítica contundente ao racismo estrutural no Brasil, explorando as fraturas do sistema educacional, a violência de Estado e as complexas dinâmicas de identidade e sobrevivência da população negra no país.

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