domingo, 17 de maio de 2026

Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara


Minha opinião: A genialidade deste livro mora exatamente na escolha da perspectiva. A autora nos entrega o mundo adulto através dos olhos de Maria Carmem, uma menina de 11 anos que, atravessando a solidão profunda e invisível da infância, tenta organizar o caos ao seu redor com uma lógica crua e muito própria. Criada no meio da loja de produtos geriátricos da família, ela tateia a vida rodeada pelos objetos que anunciam o fim. Essa convivência precoce com a velhice e a finitude lhe confere uma percepção singular sobre o tempo e, principalmente, sobre os arranjos e afetos humanos.
E é nos arranjos afetivos que a história nos dá a sua maior — e mais bela — rasteira. A chegada de um consultor para ajudar nos negócios da família culmina na formação de um trisal entre ele e os pais da menina. A grande sacada narrativa é acompanharmos essa transformação pela ótica da criança. Para Maria Carmem, a equação é pragmática e inquestionável: o humor dos pais melhora, o clima pesado da casa se dissipa e, consequentemente, a vida dela própria se torna muito melhor. Onde antes havia apatia e tristeza, passa a existir cuidado, alegria e suporte.
No entanto, o livro é brilhante ao escancarar a violência invisível do julgamento externo. A sociedade simplesmente não suporta a felicidade que foge à norma. A obra traz uma reflexão contundente sobre como o olhar dos outros condena e invalida as formas de amar que não consegue compreender, destruindo muitas vezes o que há de mais bonito e genuíno em uma relação. Através do olhar puro e prático da criança, o moralismo engessado e a condenação social soam completamente absurdos. É uma leitura que nos obriga a perguntar: por que o mundo insiste em proibir e invalidar o afeto que não cabe nas suas caixinhas, mesmo quando ele salva as pessoas?

Sinopse do Livro
Maria Carmem é uma menina de 11 anos, aspirante a escritora, que decide registrar a sua vida para lidar com a profunda solidão de estar na "pior idade do universo". Sentindo-se inadequada, fora dos padrões e alvo de bullying na escola, ela passa a maior parte do seu tempo na "loja de velhos" (o comércio de produtos geriátricos dos pais), onde reflete intensamente sobre a vida, a morte e o seu pavor do abandono. A rotina melancólica da família sofre uma guinada absoluta quando a mãe decide pedir ajuda a um especialista para salvar os negócios. O homem passa a frequentar a casa e o trio desenvolve um intenso envolvimento amoroso. A partir desse trisal inusitado, o livro explora como a menina processa as transformações emocionais dos pais, o fim da apatia dentro de casa e o preconceito da sociedade frente a uma nova estrutura familiar.

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