quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Circe - Madeline Miller


Minha opinião (contém spoiler)

A leitura de Circe foi uma grata surpresa que me capturou pela escrita fluida e encantadora de Madeline Miller. Mas o que realmente me prendeu não foi apenas a mitologia em si, mas a coragem da autora em despir os deuses de sua glória habitual. O que vemos no Olimpo não é sabedoria, é um narcisismo puro e cru. Os deuses são retratados como figuras egocêntricas, infantis e sem escrúpulos, para quem a vida dos outros (mortais ou menores) não tem sentido algum além de servir aos seus caprichos. É fascinante ver essa "família disfuncional" divina operar sob uma lógica de poder tóxico, onde não há espaço para afeto ou empatia.

Contrapondo-se a esse ruído do Olimpo, temos o exílio. Quando Circe é banida para a ilha de Eana, poderíamos esperar uma narrativa monótona de solidão. No entanto, acontece o oposto: a ilha pulsa vida. É no isolamento que a história realmente acontece, porque é ali que Circe deixa de ser uma ninfa submissa para se tornar sujeito de sua própria vida.
A ilha funciona quase como um espaço terapêutico de elaboração: é ali, entre as plantas, os animais e a feitiçaria (que ela descobre pelo esforço, não por dádiva), que ela constrói sua identidade. A cada visita que recebe — de Odisseu a Dédalo —, ela refina seu olhar sobre o mundo, deixando de ser a vítima rejeitada para ser a Feiticeira que impõe limites.

O ponto alto, sem dúvida, é o desfecho. Diferente da mitologia clássica, onde a meta final é sempre a apoteose e a imortalidade, Madeline Miller nos entrega um final subversivo e profundamente bonito: a escolha pela mortalidade.
Circe percebe que a eternidade dos deuses é estática, fria e, em última análise, vazia. Ao escolher envelhecer, sangrar e morrer, ela está, na verdade, escolhendo viver. Ela entende que é a finitude que dá contorno e sentido à experiência e ao amor. É uma conclusão filosófica poderosa: a de que a beleza da vida reside justamente no fato de que ela acaba.

Circe não é apenas uma releitura mitológica; é um estudo sobre a formação de uma mulher que precisou ser expulsa do "paraíso" para encontrar sua própria humanidade. Uma obra densa, que entrelaça o fantástico com questões psíquicas reais sobre rejeição, autonomia e a coragem de escrever o próprio destino, mesmo quando os deuses dizem o contrário.

Sinopse
Na casa de Hélio, o deus do Sol e o mais poderoso dos titãs, nasce Circe. Uma criança estranha, sem os poderes divinos óbvios de seu pai e desprezada por sua mãe, ela é vista como uma decepção no salão dourado dos deuses. Isolada e buscando aceitação, Circe acaba descobrindo um poder proibido e perigoso: a feitiçaria. Quando seus dons ameaçam a ordem estabelecida, Zeus a bane para uma ilha deserta, Eana.
Mas o exílio não é o fim; é o começo. Ali, Circe aprimora suas artes ocultas, doma feras selvagens e cruza o caminho das figuras mais famosas da mitologia: o Minotauro, Dédalo, a furiosa Medeia e, é claro, o astuto Odisseu. Mas o maior desafio de Circe não são os monstros ou os deuses vingativos que tentam destruí-la, e sim a batalha interna para descobrir a quem ela pertence: ao mundo dos deuses, de onde veio, ou ao mundo dos mortais, que ela aprendeu a amar profundamente.

Nenhum comentário: