segunda-feira, 18 de maio de 2026

De cada quinhentos uma alma, de Ana Paula Maia


Minha opinião: Este é o terceiro livro da Ana Paula Maia que leio — já havia passado por Assim na terra como embaixo da terra e Carvão animal —, e continuo impressionada. Acabei lendo fora da ordem cronológica de publicação porque fui pegando nas bibliotecas, mas isso não tirou em nada o impacto da leitura. A densidade característica da autora se mantém intacta aqui: é algo cinza, sujo, pesado, mas, de uma forma muito dolorosa, é também extremamente bonito. Como isso é possível?
Ao refletir sobre a obra, chego à conclusão de que a beleza está na resistência humana. Estamos falando de pessoas boas, vivas, fortes e densas, mas que são obrigadas a habitar um mundo sombrio, inundado pela maldade e por circunstâncias tão áridas que formam o verdadeiro "tapete" por onde a vida deles caminha. Esse ambiente violento acaba endurecendo essas pessoas, mesmo contra a vontade delas. É um livro sobre como o meio molda as nossas defesas e os nossos limites.
Nesta história, caminhamos, sem dúvidas, para um fim. Será o fim do mundo? Há uma doença devastadora acontecendo, uma epidemia inexplicável que faz com que todos queiram se esconder. Mas, à medida que avançamos na narrativa — que é bem rápida, porém de uma força avassaladora —, percebemos que o horror vai além do biológico. Há algo de muito mais terrível em andamento: o próprio governo está matando as pessoas. Enquanto tentam sobreviver a esse massacre oficializado, sinais secretos e inexplicáveis começam a surgir ao redor. É uma literatura brasileira contemporânea visceral, sufocante e que exige estômago, mas que recompensa com uma profunda reflexão sobre o que sobra de nós quando tudo colapsa.

Sinopse
A narrativa acompanha Edgar Wilson, um homem embrutecido que ganha a vida recolhendo carcaças de animais mortos pelas estradas e levando-as para serem dizimadas em um triturador de um grande depósito. Seu trabalho sujo e solitário é o retrato do país em que vive, mas, de repente, a realidade começa a se desintegrar de forma ainda mais macabra.
O país entra em um colapso inexplicável. Uma epidemia silenciosa e devastadora começa a dizimar a população, animais morrem subitamente, e um caos apocalíptico se instaura. Em meio ao desespero e ao isolamento, Edgar acaba se unindo ao ex-padre Tomás e ao violento Bronco Gil. Juntos, esses três anti-heróis improváveis passam a cruzar estradas abandonadas, tentando encontrar algum sentido para a barbárie. Pelo caminho, eles não enfrentam apenas o fim do mundo ou a doença, mas se deparam com um extermínio orquestrado pelas próprias instituições e figuras de poder, além de testemunharem eventos que desafiam a razão e a fé. Em um cenário onde a civilização ruiu, a única lei que impera é a da sobrevivência.

Verity, de Colleen Hoover


Minha opinião: Sabe aquele momento em que um livro está no topo de todas as listas de mais vendidos, o mundo inteiro parece estar lendo, e a curiosidade simplesmente fala mais alto? Foi exatamente o que me levou a Verity. 
Eu já havia lido uma obra anterior da autora (que também foi parar nos cinemas) e achado chatíssima, mas resolvi dar uma nova chance porque a premissa, desta vez, prometia suspense, tensão e uma atmosfera de investigação.
Infelizmente, a promessa ficou só na sinopse. A quebra de expectativa foi brutal. Em vez de um thriller com camadas psicológicas e um clima sombrio bem construído, me deparei com uma narrativa que se apoia em uma apelação sem fim. A história é inundada por cenas e mais cenas de sexo que não agregam ao desenvolvimento do mistério e parecem estar ali apenas para chocar ou preencher espaço.
O maior problema, no entanto, é a construção dos personagens, em especial a protagonista. Falta-lhe força, falta-lhe qualquer traço de densidade. É uma personagem vazia, cujas motivações e pensamentos são voltados quase que exclusivamente para o relacionamento afetivo. 
Não há elaboração, não há conflitos internos interessantes, apenas uma dependência de atitudes clichês e bobas.
Não posso negar que o livro prende a atenção — o ritmo é ágil e a autora sabe criar ganchos rápidos que te fazem querer virar a página para ver onde aquele absurdo vai parar. É inegavelmente a intenção dela. Porém, capturar a atenção é muito diferente de oferecer uma boa literatura. Para quem gosta de histórias viscerais, com personagens complexos e um suspense que desafia a inteligência, Verity é uma decepção. É um livro raso, sem profundidade emocional e que passa longe, muito longe, do tipo de leitura que realmente instiga o pensamento.

Sinopse
A trama acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora à beira da falência financeira e emocional. Sua sorte parece mudar quando ela recebe uma oferta de trabalho irrecusável: Jeremy Crawford, marido da famosa autora Verity Crawford, a contrata para terminar a série de livros de sucesso da esposa, que sofreu um grave acidente e está incapacitada de escrever.
Para entender o processo criativo de Verity e reunir os rascunhos necessários, Lowen se muda temporariamente para a casa da família Crawford. Lá, vasculhando o escritório da autora, ela encontra uma autobiografia não finalizada de Verity, um manuscrito que nunca deveria ter sido lido por ninguém. Nas páginas, Verity confessa acontecimentos perturbadores e segredos obscuros sobre sua família e o dia do acidente. À medida que Lowen lê os relatos, ela se vê cada vez mais envolvida com Jeremy e precisa decidir se revela a ele a terrível verdade sobre a mulher que ele ama, em meio a um clima de suposta ameaça dentro da própria casa.

Drácula, de Bram Stoker


Minha opinião: Quando somos bombardeados por décadas de filmes e adaptações de vampiros, é quase instintivo esperar uma narrativa frenética, cheia de ação ou de romances sobrenaturais. Ler a obra original de Bram Stoker, no entanto, foi uma quebra de expectativa fascinante. Eu não imaginava que a história seguiria por um caminho tão distinto e denso.
O que mais me surpreendeu — e me prendeu — foi o formato narrativo. O livro é inteiramente construído a partir de cartas, diários, recortes de jornais e telegramas.
 Essa escolha epistolar faz um sentido imenso para a época, mas, mais do que isso, permite um mergulho profundo no fluxo de pensamento e no amadurecimento psicológico dos personagens. Nós não temos um narrador onisciente nos dando respostas prontas; nós acompanhamos o terror se infiltrando pelos relatos íntimos de cada um. 
É um quebra-cabeça que vai se encaixando lentamente, construindo um clima sombrio que se adensa a cada página.
É brilhante acompanhar a transição emocional das vítimas e de seus aliados. Vemos pessoas racionais, presas à lógica, lidando com situações que, a princípio, parecem apenas delírios ou pesadelos inimagináveis. Aos poucos, a barreira do ceticismo se rompe e eles se dão conta de que o horror é físico, palpável e muito real. 
Entender a mitologia de como os vampiros são criados e como operam traz uma urgência angustiante para a trama.
A partir dessa aceitação, a forma como o grupo se une para arquitetar um plano e caçar o conde é um ponto alto do livro. E, por falar em caçada, foi uma delícia finalmente entender a verdadeira origem do lendário Professor Abraham Van Helsing! Depois de ver tantos filmes que o transformam em um herói de ação genérico, conhecer sua raiz na literatura — como um acadêmico brilhante, que tenta unir a ciência de ponta da sua época aos saberes ocultos para salvar seus amigos — fez com que tudo fizesse muito mais sentido. É um livro sobre o limite entre a razão e o irracional, e de como, às vezes, é preciso abraçar o inexplicável para sobreviver a ele.

Sinopse
A história tem início quando Jonathan Harker, um jovem advogado inglês, viaja até os Montes Cárpatos, na remota Transilvânia, para finalizar a compra de propriedades em Londres para um nobre excêntrico: o Conde Drácula. O que deveria ser uma viagem de negócios rotineira rapidamente se transforma em um pesadelo claustrofóbico, quando Harker percebe que é, na verdade, um prisioneiro em um castelo repleto de horrores indescritíveis.
Enquanto isso, na Inglaterra, sua noiva Mina Murray e a amiga dela, Lucy Westenra, começam a vivenciar episódios estranhos e adoecimentos inexplicáveis que coincidem com a chegada de um misterioso navio russo à costa de Whitby. Quando a medicina tradicional se mostra ineficaz para salvar Lucy de uma letargia que literalmente suga sua vida, o Dr. John Seward decide chamar seu antigo professor, o brilhante e excêntrico Abraham Van Helsing. Ao identificar a verdadeira natureza do mal que assola o grupo, Van Helsing lidera uma aliança desesperada para combater uma ameaça ancestral e impedir que o Conde Drácula espalhe sua maldição por toda a sociedade britânica.

domingo, 17 de maio de 2026

Uma delicada coleção de ausências – Aline Bei

Minha opinião: Sabe quando um livro nos tira o chão e a tristeza profunda se transforma rapidamente em uma revolta física insuportável? Foi exatamente isso que essa obra da Aline Bei me provocou. A autora tem a capacidade cirúrgica de nos desestabilizar com uma narrativa poética, mas que expõe fraturas muito cruéis. O que realmente sufoca e causa indignação na leitura não é apenas o sentimento de abandono afetivo, e sim a barbárie que se esconde na raiz dessa família.
A história é um mergulho angustiante nas gerações de mulheres dessa casa — Laura, a avó Margarida e a bisavó —, mas a verdadeira sombra que paira sobre a obra é a violência indizível do ciclo de abuso. O soco no estômago mais forte vem com a figura asquerosa de Camilo. O estupro que a jovem Laura sofre já é uma violência intolerável por si só, mas o livro nos empurra para um abismo ainda maior ao insinuar a aterrorizante possibilidade de Camilo ser o próprio pai dela.
É nesse ponto que a narrativa atinge o ápice da indignação. A ausência de Glória, a mãe que sumiu no mundo, ganha um contorno assustador e revoltante. Fica evidente que ela sofreu a mesma violência nas mãos de Camilo. A sua fuga deixa de ser lida como um simples abandono materno e revela-se como o desespero absoluto de uma mulher que foi destruída e que, tragicamente, deixou a filha vulnerável ao mesmo predador. A autora escancara como o trauma, o abuso continuado e o silêncio são heranças malditas que aprisionam essas mulheres numa repetição infernal. É uma obra essencial, dura e que nos faz querer gritar diante da crueldade e da desproteção.

Sinopse do Livro
Neste romance intenso, Aline Bei acompanha a convivência de diferentes gerações de mulheres sob o mesmo teto: a jovem Laura, que está se despedindo da infância; a avó Margarida, que a cria; e a bisavó religiosa e rígida, que traz o peso dos julgamentos para a rotina da casa. A residência é marcada pela ausência esmagadora de Glória, a mãe de Laura, que abandonou a família. Enquanto as mulheres tentam sobreviver aos embates de crenças e às próprias solidões, a obra vai revelando, sem anestesia, as camadas de violências sistêmicas e silenciosas que perpassam a linhagem familiar. A narrativa culmina na exposição de abusos sexuais brutais que conectam o passado traumático da mãe ausente ao presente devastador da jovem Laura, expondo as cicatrizes irrecuperáveis deixadas pelo abuso.

Os Malaquias – Andréa del Fuego


Minha opinião: Há leituras que nos fisgam pela expectativa e nos arrebatam exatamente por quebrarem qualquer ilusão de controle que tentamos ter sobre a narrativa. Fui ler Os Malaquias muito animada e, de fato, a história é incrivelmente envolvente. Mas ela não nos entrega um caminho fácil. Acompanhar a trajetória desses três irmãos separados pela tragédia é mergulhar em um universo onde a fronteira entre o real e o delírio simplesmente evapora. Em vários momentos me vi completamente perdida, tentando entender se a fantasia estava acontecendo de verdade ou se era apenas a forma que eles encontraram para suportar a dor.
A autora constrói cenários que funcionam como verdadeiros abismos psíquicos. Aquele lugar na serra onde ninguém podia ir, que parecia a travessia para um outro mundo, dá o tom de assombração e de perda que permeia o livro inteiro. Cada um dos irmãos absorve o trauma da orfandade de um jeito muito particular e doloroso. Vemos a loucura tomar conta do irmão mais velho, Nico, que tenta anestesiar a própria mente através do esgotamento no trabalho braçal pesado. Temos o Antônio, o irmão anão, que se coloca na história de uma maneira fascinante, encontrando o seu próprio — e inusitado — modo de fazer parte da engrenagem daquele mundo no orfanato. E, claro, a irmã caçula, Júlia, que cresce com esse vazio do desterro.
É o tipo de livro que nos deixa profundamente mexidos. Durante toda a leitura, a gente torce desesperadamente para que o sangue chame o sangue, para que eles se encontrem e que tudo acabe bem. Mas a grande força da Andréa del Fuego (e o que a torna uma autora tão espetacular) é a coragem de não fazer concessões ao clichê. Ela nos arrebata com a dura constatação de que a vida, na maioria das vezes, não é assim. Não há redenção mágica para laços que foram cortados pela raiz; há apenas a sobrevivência, com toda a sua crueza e estranheza.


Sinopse do Livro
Na mítica e isolada Serra Morena, a vida de três crianças — Nico, Antônio e Júlia — é estilhaçada quando os seus pais morrem subitamente, atingidos por um raio. Órfãos e desamparados, os irmãos Malaquias são separados e atirados para destinos completamente distintos, perdendo o convívio e as suas raízes. Nico, o mais velho, é levado para o trabalho braçal e exaustivo nas fazendas de café; Antônio, que tem nanismo, é acolhido por freiras em um orfanato; e Júlia, a caçula, é adotada por uma família rica e silenciosa. Atravessado por um realismo mágico denso, onde os mortos continuam a rondar os vivos, o romance narra a trajetória de desencontros, a solidão e as formas peculiares que cada irmão encontra para sobreviver ao abandono num mundo que lhes virou as costas.

O Alienista – Caleb Carr

Minha opinião: Há livros que moram na nossa estante e na nossa memória afetiva por anos. Eu tinha lido a continuação desta obra, O Anjo das Trevas, ainda na adolescência, e ele rapidamente se tornou um dos meus suspenses policiais favoritos. A vontade de ler O Alienista, o livro que deu origem a tudo, era imensa. Quando finalmente consegui um exemplar emprestado, o resultado foi inevitável: devorei as páginas em apenas três dias. E que leitura irretocável!
A narrativa entrega absolutamente tudo o que um suspense investigativo de altíssimo nível precisa ter. Somos atirados para a Nova York do final do século XIX, numa época em que a psicologia e a ciência forense ainda engatinhavam. Acompanhar a busca meticulosa por detalhes, a coleta das pistas e o cruzamento de informações nos deixa presos num estado de curiosidade febril para desvendar quem é o criminoso. Os personagens são incrivelmente envolventes e complexos, fazendo com que a gente não consiga parar de pensar nas suas motivações e dinâmicas mesmo depois de fechar o livro.
Mas o que realmente eleva O Alienista à categoria de obra-prima é a sua atmosfera densa, que remete muito àquela genialidade sombria de O Silêncio dos Inocentes. O foco aqui não é apenas responder "quem matou?", mas responder "por quê?". O protagonista, o Dr. Laszlo Kreizler, é um "alienista" (o termo usado na época para os primeiros psicólogos e psiquiatras criminais) focado em entender a raiz do mal. Ele precisa mergulhar na infância, nos traumas e nas repetições do assassino para criar o que hoje conhecemos como perfil criminal. É uma obra fascinante sobre a necessidade humana de tentar compreender a lógica doentia que se passa na cabeça de um psicopata. Um suspense brilhante, sombrio e muito, muito bem escrito.


Sinopse do Livro
Nova York, 1896. A cidade é sacudida por uma série de assassinatos brutais cujas vítimas são jovens garotos que se prostituem nos bordéis locais. A polícia, corrupta e despreparada, encontra-se num beco sem saída. É então que o recém-nomeado comissário de polícia, Theodore Roosevelt, decide montar uma equipe de investigação secreta e não convencional. Ele convoca o seu antigo colega de faculdade, o Dr. Laszlo Kreizler — um brilhante e controverso alienista —, o repórter criminal John Schuyler Moore e a obstinada Sara Howard, a primeira mulher a trabalhar no departamento de polícia. Juntos, eles utilizam métodos revolucionários para a época, como a análise de impressões digitais e, principalmente, a criação de um perfil psicológico detalhado do assassino, tentando entrar na mente do monstro antes que ele faça a sua próxima vítima.

Terra Dentro – Vanessa Vascouto

Minha opinião: Há narrativas que não nos dão sequer um segundo para respirar, e Terra Dentro é uma corrida ladeira abaixo e sem freios. O livro é muito curto, mas possui uma densidade e uma crueza quase sufocantes. A história é narrada pelas vozes de três irmãos — Mosquito, Rita e Mirna — que vivem no interior do Sul do país, curvados sobre uma roça de batatas que não lhes pertence. O que temos aqui é o retrato do abandono absoluto. A vida deles é tão castigada, tão desprovida de qualquer perspectiva ou afeto, que a pobreza material se transforma numa terrível pobreza identitária. Eles são indivíduos esquecidos pela própria sorte, tentando sobreviver numa estrutura familiar já fraturada por uma mãe afundada no alcoolismo.
A genialidade dolorosa da obra reside na forma como ela disseca o adoecimento psíquico. Diante de uma realidade insuportável e de tragédias que se sobrepõem de forma implacável — como a prisão de Mosquito ou o luto devastador de Rita, que perde o marido e a filha que esperava —, a narrativa escancara como os mecanismos de defesa podem ser radicais. Para suportar a extrema miséria física e emocional, a mente estilhaça-se.
A loucura não aparece aqui apenas como um sintoma do trauma; ela é adquirida como uma inevitabilidade, quase como um afago, a única forma encontrada para continuar existindo quando a realidade se torna impossível de habitar. É um romance árido, seco, que não faz concessões. Mostra-nos, sem qualquer romantização, que as pessoas não adoecem no vácuo e que, muitas vezes, a terra não serve apenas para parir sustento, mas para nos aprisionar nos nossos maiores abismos internos.

Sinopse do Livro
Em Terra Dentro, o leitor é atirado para dentro das mentes de três irmãos: Mosquito, Rita e Mirna, que se revezam na narração para expor um cotidiano brutal no trabalho rural. Marcados pelo abandono de uma mãe alcoólatra e pela total escassez material, eles tentam forjar as próprias regras para sobreviver à miséria. Quando uma série de infortúnios e perdas abruptas destrói o pouco que lhes restava de chão, os irmãos são empurrados para além dos seus limites suportáveis. Sem espaço para o afeto ou para a esperança, a novela acompanha o colapso desses personagens, revelando como a violência, o crime e, em última instância, a loucura e o delírio se tornam as únicas respostas possíveis à desgraça do esquecimento social.

Eu Só Existo às Terças-feiras – Rodrigo Goldacker

Minha opinião: Esse é, de fato, um livro deliciosamente estranho! E você tem toda a razão quando diz que a história tem uma pegada super cinematográfica — a premissa de acompanhar uma mente fragmentada que só desperta um dia por semana daria um roteiro de suspense psicológico incrível. A narrativa de Eu Só Existo às Terças-feiras te pega justamente por essa confusão angustiante de tentar entender como alguém sobrevive existindo apenas em "fatias" de tempo.
A genialidade da obra está na forma como o autor traduz a dissociação psíquica. Viktor divide-se em sete partes, uma para cada dia da semana. Sob a ótica clínica, é impossível não ler isso como um mecanismo de defesa levado ao extremo: a mente estilhaça-se porque a dor ou a sobrecarga da existência inteira é insuportável para um ego só. E a parte mais brilhante e desesperadora do livro, que você captou muito bem, é a incomunicabilidade entre esses "eus". Imagina a loucura que é viver sem ter acesso às memórias e às experiências das suas outras partes, habitando o mesmo corpo, mas isolado na própria temporalidade?
O grande conflito do protagonista — o tímido Terça — gira em torno desse processo doloroso e necessário de fusão. A história escancara uma dinâmica psicológica muito densa: para curar, é preciso que todas essas partes separadas, que são igualmente necessárias para dar conta da vida, sejam integradas. O problema é que a integração dá medo. Ninguém quer abrir mão do controle do seu próprio pedacinho de existência, mesmo que isso signifique viver pela metade. É um romance instigante, que envolve completamente e levanta questões profundas sobre o que realmente significa ser um "sujeito inteiro" e os abismos que criamos dentro de nós mesmos para sobrevivermos à realidade.

Sinopse do Livro
Finalista do Prêmio Amazon de Literatura Jovem, Eu Só Existo às Terças-feiras acompanha a vida incrivelmente fragmentada de Viktor, um jovem cuja mente desenvolveu um sistema de sobrevivência radical: ele possui sete personalidades distintas, cada uma assumindo o controle do corpo durante um dia específico da semana. O narrador e protagonista da história é Terça, a personalidade tímida e introspectiva que apenas desperta às terças-feiras, ficando isolada do mundo durante o resto da semana. A rotina rigorosamente compartimentada de Viktor entra em colapso quando eclode uma verdadeira guerra interna entre os seus vários "eus". No meio desse caos mental e da total recusa de integração das outras partes, a única esperança de impedir a destruição do sistema recai sobre Terça, que começa a desenvolver habilidades inesperadas para tentar reestruturar a própria mente.

A Casa na Rua Mango – Sandra Cisneros


Minha opinião: Há livros que reconhecemos o valor histórico e a delicadeza, mas que, no fim das contas, simplesmente não nos arrebatam. A Casa na Rua Mango me deixou exatamente com essa sensação mediana. A proposta da autora é interessante: narrar a vida em um bairro latino decadente de Chicago através de pequenas histórias, quase como crônicas ou fotografias do cotidiano, guiadas pelo olhar de uma menina que está crescendo e tateando o seu lugar no mundo.
O livro constrói bem a atmosfera da comunidade. Acompanhamos as casas apertadas, as fofocas das vizinhas, as dinâmicas familiares e o choque cultural de quem vive nas margens. No entanto, justamente por ser uma narrativa construída em fragmentos tão breves, a história não oferece aquele mergulho profundo na psique dos personagens. A lente infantil e transitória da protagonista faz com que as emoções, as violências e os conflitos sejam apenas pincelados, esvanecendo rápido demais.
Para quem aprecia uma literatura que disseca a ambivalência humana, que sustenta as tensões e explora os limites da autonomia e do desejo de forma visceral, a estrutura de vinhetas do livro pode soar insuficiente. Ele é um belo relato sobre pertencimento e identidade, mas escolhe patinar na superfície das relações e da vizinhança, em vez de escancarar as fraturas e os abismos dos vínculos. É uma leitura agradável e rápida, mas que não nos deixa habitados por aquela angústia transformadora depois que fechamos o livro.

Sinopse do Livro
Considerado um clássico contemporâneo e um importante romance de formação (Bildungsroman), A Casa na Rua Mango é composto por uma série de vinhetas — narrativas muito curtas e poéticas. A história é contada por Esperanza, uma pré-adolescente de origem mexicana que mora em um bairro latino na cidade de Chicago. Através de fragmentos da sua rotina e do seu olhar observador, o livro descreve a vida dos vizinhos, as restrições impostas às mulheres da comunidade, as desigualdades sociais e o desejo latente da protagonista de encontrar a sua própria identidade, ter o seu próprio espaço e, um dia, conseguir ir embora da rua Mango para alcançar a autonomia.

A Metamorfose - Franz Kafka

Minha opinião: Há um abismo de diferença entre ler A Metamorfose na juventude e revisitá-la com o estofo da maturidade. O que antes poderia parecer apenas uma história fantástica e absurda sobre um homem que acorda transformado num inseto, agora revela-se como uma das metáforas mais cruéis e precisas sobre a utilidade dos corpos e o colapso dos afetos. Voltar aos clássicos tem esse poder: a obra é a mesma, mas nós mudamos, e a nossa escuta clínica capta frequências muito mais dolorosas nessa releitura para discutir com os amigos.
A angústia inicial da leitura bate exatamente na desconfiguração física. Gregor Samsa perde o contorno humano, perde a voz e o controle do próprio corpo. Mas o verdadeiro terror de Kafka não é a transformação biológica; é a transformação social e relacional. No início, ainda há um resquício de compaixão, um cuidado provisório exercido pela irmã. No entanto, à medida que o tempo passa e a esperança de que ele volte a ser o provedor financeiro da casa desaparece, o afeto escorre pelo ralo. Gregor deixa de ser produtivo e, instantaneamente, passa a ser lido pela família como um estorvo.
É impossível ler essa transição sem traçar um paralelo brutal com a forma como a nossa sociedade opera a exclusão cotidianamente. Gregor é a representação perfeita daqueles que são empurrados para a margem quando deixam de ter serventia para a engrenagem normativa. Vemos isso na exclusão e no abandono dos idosos, mas o texto reverbera de forma muito dura e direta sobre a realidade das pessoas com deficiência. Quando lidamos com a reabilitação, percebemos na pele como o sistema tende a isolar e descartar qualquer corpo que não responda à demanda de produtividade e que exija adaptação e cuidado contínuo. A obra é assustadoramente atemporal porque escancara que, na lógica utilitarista, o valor de um sujeito é frequentemente condicionado ao que ele consegue produzir. Quando a máquina do corpo "falha", a sociedade apaga o indivíduo.

Sinopse do Livro
Gregor Samsa é um caixeiro-viajante que sustenta sozinho os pais e a irmã mais nova com um trabalho exaustivo e alienante. Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, descobre que o seu corpo se transformou num inseto monstruoso de carapaça dura. Preso no próprio quarto, ele perde o emprego e a capacidade de se comunicar de forma inteligível. A novela narra o processo de degradação existencial de Gregor, acompanhando a forma como a sua família lida com a nova realidade. Inicialmente tratado com um misto de susto, repulsa e pena, ele vai sendo progressivamente negligenciado e escondido. Com o passar do tempo, aquele que antes era o pilar da casa torna-se um peso insuportável para os parentes, que precisam reorganizar as suas vidas e arranjar novos trabalhos para sobreviverem sem ele.

​O Avesso da Pele – Jeferson Tenório


Minha opinião: Há livros que lemos por curiosidade e há livros que nos engolem. A minha vontade de ler O Avesso da Pele surgiu, confesso, impulsionada por todo o reboliço e pelas tentativas absurdas de censura sob a justificativa de conter "cenas inapropriadas". Mas, ao mergulhar na leitura, a constatação é imediata: de inapropriado este livro não tem absolutamente nada. Ele é, na verdade, dolorosamente apropriado. O verdadeiro incômodo que ele gera não vem de palavras ou cenas isoladas, mas da coragem de escancarar uma realidade que o Brasil insiste em varrer para debaixo do tapete.

A narrativa nos é entregue pela voz de Pedro, um jovem que perde o pai, Henrique, assassinado numa abordagem policial desastrosa. A partir desse luto, o filho empreende uma jornada de reconstrução da história desse pai. E o que a narrativa nos mostra, de forma implacável, é que a vida de Henrique — e a de Pedro — é inteiramente permeada e definida pela cor da pele. É um livro sobre como o racismo não é apenas um evento isolado, mas a própria atmosfera em que se respira.

A genialidade de Jeferson Tenório está em traduzir o racismo estrutural para o cotidiano íntimo e psicológico. Ele nos faz sentir na pele o que quem não é negro muitas vezes não consegue nomear: o peso dos olhares, a necessidade de estar sempre justificando a própria existência, o risco de ser confundido com um bandido simplesmente por andar na rua, e as humilhações sistêmicas das abordagens policiais. A obra constrói uma atmosfera densa de medo, preocupação e uma sensação crônica de inadequação. É uma leitura riquíssima e intensa, que nos sufoca ao mostrar como a violência racial destrói vínculos, encarcera subjetividades e rouba o direito mais básico de um ser humano: o de simplesmente existir sem pedir desculpas.

Sinopse do Livro
Vencedor do Prêmio Jabuti, O Avesso da Pele conta a história de Pedro, um jovem negro cuja vida é fraturada pela morte do pai, Henrique, um professor de literatura da rede pública de Porto Alegre, assassinado em uma abordagem policial violenta e racista. Após a tragédia, Pedro busca resgatar o passado da família, remontando a trajetória do pai, a relação de Henrique com a sua mãe (Martha) e a própria infância. Por meio dessa investigação afetiva e dolorosa, o romance tece uma crítica contundente ao racismo estrutural no Brasil, explorando as fraturas do sistema educacional, a violência de Estado e as complexas dinâmicas de identidade e sobrevivência da população negra no país.

​Se não fossem as sílabas do sábado – Mariana Salomão Carrara


Minha opinião: Há livros que nos atravessam de uma forma tão brutal que a leitura se torna uma experiência física, daquelas que ainda arrancam lágrimas incontroláveis mesmo muito tempo depois de fecharmos as páginas. Se não fossem as sílabas do sábado é uma dessas obras raras e avassaladoras. A narrativa não pede licença; ela já se inicia com um soco no estômago, uma fatalidade absurda que desafia qualquer tentativa de simbolização. Ana, grávida, perde o marido, André, de forma trágica quando outro homem comete suicídio atirando-se sobre ele.
A partir desse extremo do acaso, somos lançados no abismo absoluto do luto. A autora traduz com uma precisão cirúrgica aquela agonia mental que consome quem fica: a tortura infinita do "e se?". Acompanhamos a mente de Ana tentando desesperadamente reescrever o passado, repassando cada escolha antes da tragédia. E se eu não tivesse ligado para ele sair de casa? E se eu tivesse pensado diferente? É a dor imensa de tentar encontrar uma lógica, de tentar segurar com as mãos um controle que não existe perante a morte.
Mas o grande trunfo deste romance, e o que mexe de forma tão profunda com quem lê, é o que ele escancara sobre os nossos vínculos perante a dor crônica. O luto de Ana não é poético, não é rápido, nem assético. Dura anos, e é carregado de uma raiva e de uma tristeza sufocantes. É nesse cenário de escombros emocionais que a narrativa expõe uma das verdades mais cruéis da nossa existência: quando não estamos bem, quando a felicidade desaparece e não há prazo para a dor passar, a maioria das pessoas foge. A sociedade exige superação rápida e não suporta dividir a angústia.
É exatamente por isso que a relação central do livro é tão comovente. Madalena, a viúva do homem que causou o acidente, torna-se a âncora de Ana. 
Uma amizade improvável forjada no trauma, onde Madalena faz o impensável: ela aguenta o luto. Ela tolera a dor de Ana, suporta a raiva e a ausência de alegria, e simplesmente fica. Ficar ao lado de alguém em ruínas, sem a urgência de consertá-la e sem virar as costas, é o ato mais profundo de afeto que se pode oferecer. Um romance visceral e lindíssimo sobre a brutalidade da perda e sobre a imensa preciosidade das pouquíssimas pessoas que não nos abandonam quando o nosso mundo desmorona.

Sinopse do Livro
A vida de Ana, que aguarda a chegada da sua primeira filha, é estilhaçada por um acidente improvável: o seu marido, André, morre esmagado pelo corpo de outro homem que põe fim à própria vida atirando-se da janela. No epicentro desta tragédia, o caminho de Ana cruza-se com o de Madalena, a vizinha e viúva do suicida. Unidas por um trauma insólito e por perdas que simultaneamente se espelham e se repelem, as duas mulheres desenvolvem uma convivência complexa e intensa. Enquanto Ana submerge num luto prolongado, tateando a maternidade por entre a culpa, a raiva e o lamento das alternativas perdidas, Madalena torna-se a presença constante e improvável que sustenta o seu colapso. O romance explora os limites da sobrevivência emocional e a força dos vínculos que se formam quando a vida nos tira absolutamente tudo.

Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara


Minha opinião: A genialidade deste livro mora exatamente na escolha da perspectiva. A autora nos entrega o mundo adulto através dos olhos de Maria Carmem, uma menina de 11 anos que, atravessando a solidão profunda e invisível da infância, tenta organizar o caos ao seu redor com uma lógica crua e muito própria. Criada no meio da loja de produtos geriátricos da família, ela tateia a vida rodeada pelos objetos que anunciam o fim. Essa convivência precoce com a velhice e a finitude lhe confere uma percepção singular sobre o tempo e, principalmente, sobre os arranjos e afetos humanos.
E é nos arranjos afetivos que a história nos dá a sua maior — e mais bela — rasteira. A chegada de um consultor para ajudar nos negócios da família culmina na formação de um trisal entre ele e os pais da menina. A grande sacada narrativa é acompanharmos essa transformação pela ótica da criança. Para Maria Carmem, a equação é pragmática e inquestionável: o humor dos pais melhora, o clima pesado da casa se dissipa e, consequentemente, a vida dela própria se torna muito melhor. Onde antes havia apatia e tristeza, passa a existir cuidado, alegria e suporte.
No entanto, o livro é brilhante ao escancarar a violência invisível do julgamento externo. A sociedade simplesmente não suporta a felicidade que foge à norma. A obra traz uma reflexão contundente sobre como o olhar dos outros condena e invalida as formas de amar que não consegue compreender, destruindo muitas vezes o que há de mais bonito e genuíno em uma relação. Através do olhar puro e prático da criança, o moralismo engessado e a condenação social soam completamente absurdos. É uma leitura que nos obriga a perguntar: por que o mundo insiste em proibir e invalidar o afeto que não cabe nas suas caixinhas, mesmo quando ele salva as pessoas?

Sinopse do Livro
Maria Carmem é uma menina de 11 anos, aspirante a escritora, que decide registrar a sua vida para lidar com a profunda solidão de estar na "pior idade do universo". Sentindo-se inadequada, fora dos padrões e alvo de bullying na escola, ela passa a maior parte do seu tempo na "loja de velhos" (o comércio de produtos geriátricos dos pais), onde reflete intensamente sobre a vida, a morte e o seu pavor do abandono. A rotina melancólica da família sofre uma guinada absoluta quando a mãe decide pedir ajuda a um especialista para salvar os negócios. O homem passa a frequentar a casa e o trio desenvolve um intenso envolvimento amoroso. A partir desse trisal inusitado, o livro explora como a menina processa as transformações emocionais dos pais, o fim da apatia dentro de casa e o preconceito da sociedade frente a uma nova estrutura familiar.

O Lugar, da Annie Ernaux


Minha opinião: Sabe aquele livro que não te atinge com um soco imediato, mas que deixa um desconforto surdo que a gente só percebe tempos depois? 
O Lugar foi essa leitura para mim. No meio de histórias de violências e traumas explosivos, quase me esqueci da dor sutil que a Annie Ernaux narra aqui: a imensa e trágica dificuldade de nos relacionarmos com a nossa própria família quando passamos a não pertencer mais ao mesmo mundo que eles.
A obra é uma dissecação autobiográfica do luto, mas não apenas pela morte do pai da autora. É o luto pela perda da linguagem em comum. 
Ao ascender social e intelectualmente, a filha passa a desejar coisas, a ter sonhos e a usar palavras que o pai, um ex-operário e dono de um pequeno comércio de interior, não compreende. A autora expõe, sem qualquer romantização, como muitas vezes queremos desesperadamente ser diferentes dos nossos pais para garantir nossa autonomia, mas ao conseguirmos isso, pagamos o preço de um abismo intransponível entre nós.
Há uma cena no livro que sintetiza essa agonia de forma brilhante: a cena na escada. Ela ilustra perfeitamente essa protagonista dividida. Ela quer se aproximar do pai, quer resgatar aquele vínculo primordial, mas há um marido burguês do outro lado que evidencia o quanto ela mudou. Naquele momento, fica claro que o marido não pertence àquele lugar simples, e ela própria já não pode estar ali por inteiro. É o retrato de quem se tornou um estrangeiro dentro da própria casa. É um livro curto, seco, mas fundamental para pensarmos como a vergonha de classe e as escolhas de vida podem mutilar silenciosamente o afeto.

Sinopse do Livro
Logo após a morte do pai, a escritora francesa Annie Ernaux decide investigar a vida desse homem e, consequentemente, a sua própria origem. Através de uma linguagem que ela mesma define como "plana" e objetiva, a autora narra a trajetória do pai, desde o trabalho exaustivo no campo e na fábrica até a conquista de um pequeno comércio em uma cidade de província. Em paralelo, Ernaux descreve o seu próprio distanciamento daquele núcleo familiar. Ao ingressar na universidade e casar-se com um homem da burguesia, ela sofre o que a sociologia chama de "transfobia de classe": a ruptura de linguagem, de costumes e de compreensão do mundo que a separa definitivamente da realidade simples dos seus pais, transformando o amor em um sentimento permeado pela vergonha e pelo silêncio.

Há uma lápide com o seu nome – Camilla Canuto

Minha opinião: ​Este é um livro que desconfigura certezas. Ao terminar a leitura, fiquei pensando em como as relações humanas são frequentemente tensas, embora mantenham uma aparência de normalidade para quem olha de fora. Muitas vezes, rotulamos alguém como "a chata" ou "a fofoqueira" sem alcançar a profundidade do que aquela vida carrega.

​O que mais me tocou foi o jogo de espelhos entre as protagonistas. Sentimos a angústia de Bernarda, que quer ser vista e amada, mas também somos levados para o mundo interior de Constança. Ela não é simplesmente alguém "difícil"; é uma mulher que também buscou ser olhada e que carrega suas próprias dores e impossibilidades.

​A obra nos faz refletir sobre como as marcas familiares se mantêm e se repetem, mas também sobre a tentativa constante de mudar, de ir ou de ficar. Não existe o "bom" ou o "mau" absoluto aqui; o que existe é a vida, o sofrimento e o aprendizado contínuo. É um livro que humaniza o conflito e nos obriga a olhar para as feridas abertas com mais empatia e menos julgamento. Uma leitura visceral sobre o desejo de pertencimento e as complexidades do vínculo materno.


Sinopse
O livro mergulha nas águas turvas das relações familiares, focando no embate silencioso entre mãe e filha. Através de uma narrativa que alterna perspectivas, acompanhamos a trajetória de mulheres marcadas por traumas geracionais e feridas que nunca cicatrizaram totalmente. Enquanto a filha busca seu próprio caminho e a validação materna, a mãe revela as camadas de sua própria infância e as buscas que a moldaram. É uma história sobre o que não é dito, sobre a tentativa de ser amada e sobre as marcas que herdamos antes mesmo de nascermos.

Doce introdução ao caos, da Marta Orriols


Minha opinião: Sabe aquelas leituras que pegam um tema espinhoso e o dissecam sem qualquer anestesia ou romantização? Doce introdução ao caos faz exatamente isso. A narrativa acompanha um casal jovem e estável que, de repente, se depara com uma gravidez não planejada. A grande ruptura da história — e o seu maior trunfo — é que a protagonista simplesmente não quer ser mãe. Ela reivindica a vontade de não ter o filho e o direito absoluto de poder escolher isso.
O que torna o livro tão denso e necessário é a forma como a autora explora o embate entre o desejo do outro e o corpo da mulher. De um lado, temos um companheiro que vê nessa gestação a chance de reparar faltas do seu próprio passado familiar. Ele projeta na criança uma fantasia de cura e idealização. Do outro lado, temos a dura realidade física e emocional: por mais que ele deseje, não é ele quem vai gerar, não é o corpo dele que vai se desconfigurar, e, no fundo, sabemos que não será ele a carregar o peso histórico e exaustivo do cuidado.
É um livro importantíssimo porque foge do clichê de que a maternidade é um chamado universal e mágico. A narrativa escancara como a escolha da mulher pelo aborto, a sua recusa em ocupar o lugar de mãe e a sua luta para manter a própria autonomia mexem profundamente nas estruturas de uma relação. O caos do título não é a gravidez em si, mas a revelação angustiante de que, muitas vezes, amar o outro não é suficiente para conciliar desejos tão opostos. É uma leitura visceral, que levanta questões dificílimas sobre limites, posse e sobre quem realmente paga o preço quando o desejo de um tenta colonizar o corpo do outro.

Sinopse do Livro
Marta e Dani formam um casal contemporâneo na faixa dos trinta anos, vivendo uma relação apaixonada, estável e cheia de planos em comum. A dinâmica perfeita dos dois sofre um abalo sísmico quando Marta descobre que está grávida acidentalmente. Enquanto Dani — marcado por um histórico familiar de perdas — é inundado por um instinto paternal repentino e pelo desejo de construir uma família para curar o passado, Marta tem a certeza absoluta de que não deseja a maternidade e decide abortar. A partir desse impasse, o romance mergulha numa crise profunda entre os dois, dissecando em detalhes a fragilidade dos acordos conjugais, as expectativas não ditas e os limites da autonomia individual dentro de um vínculo amoroso.

Escrevo seu nome no arroz (Caetano Romão)


Minha opinião: Sabe aquele tipo de livro que nos suga para dentro de um vórtice e nos faz duvidar da nossa própria compreensão da realidade? Escrevo seu nome no arroz é exatamente isso. A leitura é tão intensa, e a atmosfera de confusão é tão bem arquitetada, que em vários momentos me peguei pensando: "Será que eu entendi direito o que está acontecendo aqui?". 
E a verdade brilhante é que o autor não quer que a gente entenda tudo de forma linear. Ele quer que a gente sinta na pele o que é perder as amarras com o mundo real.
A narrativa acompanha dois irmãos órfãos isolados numa área rural. O mais velho, Simão, sempre foi a figura de proteção do caçula, que é gago e nos empresta a sua voz (ou o seu pensamento acelerado) para narrar a história. A genialidade do livro explode quando a lógica dessa relação de cuidado se inverte. Eles começam a ouvir vozes vindas da terra, e Simão passa a ser devorado por um "mal invisível", uma loucura que o descola da realidade.
É aí que o texto mexe perigosamente com a nossa cabeça. Como estamos presos na perspectiva desse irmão mais novo, as fronteiras entre o que é o luto, o que é o sobrenatural, o que é realismo mágico e o que é puro delírio simplesmente derretem. 
Fica impossível saber se estamos testemunhando eventos mágicos de uma terra mística ou o colapso mental de dois sujeitos isolados (uma espécie de delírio compartilhado) tentando dar contorno ao trauma da perda da mãe.
Caetano Romão articula a desorganização da mente com uma linguagem poética e implacável. É um livro que nos exige estofo para sustentar a ambivalência do início ao fim. Terminei a última página com a sensação deliciosa e agoniante de ter vivido uma psicose literária. Um mergulho denso e muito bem escrito nos limites da razão.

Sinopse do Livro
Em uma cidade rural de terra vermelha, dois irmãos acabam de enterrar a mãe. Simão, o mais velho, é brigão e sempre assumiu o papel de proteger o caçula das hostilidades do mundo. O menor — que carrega o seu nome gravado num grão de arroz como amuleto — é gago e narra a história através de capítulos curtos, conduzindo-nos pelo seu fluxo de pensamento. A dinâmica de sobrevivência entre os dois é violentamente sacudida quando eles começam a escutar vozes inexplicáveis vindas do ventre da terra. A partir desse momento, Simão começa a sucumbir a um padecimento psíquico e invisível, forçando o irmão mais novo e sensível a assumir o papel de cuidador da casa e da sanidade de ambos. A obra é uma mistura potente de oralidade do interior, feitiços populares e um mergulho visceral nos abismos da mente.

Vamos Comprar um Poeta – Afonso Cruz


Minha opinião: Sabe aquele livro que começa causando um estranhamento absoluto, fazendo a gente se questionar se está realmente entendendo o que está lendo? Vamos comprar um poeta provoca exatamente isso. O Afonso Cruz joga-nos numa sociedade distópica onde absolutamente tudo é quantificado, medido e focado na utilidade financeira. Os afetos são calculados em porcentagens, os abraços têm custo-benefício e as palavras só importam se gerarem lucro.
É nesse cenário árido que uma família decide adquirir um "artista" de estimação. E a genialidade do livro — e também a sua crítica mais feroz — mora aí: a arte e o artista não são valorizados pelo que provocam, mas pelo status que representam. Ter um poeta em casa torna-se um luxo exótico,
 um verniz social. É impossível não traçar um paralelo com a nossa própria realidade, onde muitas vezes consumimos arte não para sermos atravessados por ela, mas para preencher um vazio de identidade, para ostentar capital cultural ou simplesmente para decorar a sala. Compramos a casca e ignoramos o conteúdo.

Mas o que acontece quando o inútil entra na nossa rotina? O poeta, que não produz nada de "útil" para o mercado, acaba sendo o elemento de ruptura daquela casa. Ele suja o ambiente limpo da família com metáforas, com pausas, com a contemplação de coisas que não dão dinheiro. Ele quebra a repetição mecânica da vida daquela família e introduz algo perigosíssimo: a simbolização e o desejo.

O livro traz uma reflexão curtinha, mas de uma profundidade imensa, sobre os limites da nossa própria humanidade. Quando a gente só valoriza o que é quantificável, a gente perde a capacidade de sentir de verdade. A presença do poeta incomoda porque escancara que, no fundo, aquilo que chamamos de inútil — a poesia, o afeto desinteressado, a contemplação — é a única coisa que realmente nos mantém vivos.

Sinopse do Livro
Em uma sociedade fictícia onde o materialismo atingiu o seu ápice, todas as interações humanas, pensamentos e ações são rigorosamente metrificados e voltados para a produtividade econômica. Nesse mundo, os artistas deixaram de ser produtores de cultura para se tornarem animais de estimação mantidos por famílias burguesas. A trama acompanha uma menina que pede ao pai para ter um poeta, convencendo-o de que o animal não dará muito gasto. A chegada desse poeta, com a sua mania de observar o mundo e criar versos em vez de planilhas, subverte silenciosamente a dinâmica da casa, ensinando aos seus "donos" o poder transformador da poesia, do amor e do pensamento livre em um mundo aprisionado pelos números.

sábado, 2 de maio de 2026

O Familiar – Leigh Bardugo

Minha opinião: Confessar que um livro nos surpreendeu é sempre um ponto de partida fascinante. Entrar numa história de época com toques de magia pode gerar uma certa desconfiança inicial, mas a autora constrói aqui algo que vai muito além de um simples conto de fadas.
 É uma narrativa que usa a fantasia como pano de fundo para explorar dinâmicas de opressão, poder e a força visceral de mulheres que a sociedade tenta silenciar.
O grande trunfo da obra é a sua protagonista, Luzia. Longe da figura imaculada da donzela, ela é uma criada constantemente maltratada e desrespeitada, que esconde um poder latente e perigoso. O que a torna tão cativante é a sua profunda humanidade: ao mesmo tempo em que se revela uma mulher fortíssima, ela também comete erros. Ela não é um arquétipo perfeito; é uma pessoa tentando sobreviver. O romance que surge na trama acompanha essa complexidade passa longe de ser meloso e é atravessado por tensão, segredos e uma constante necessidade de autopreservação.
A narrativa é hábil em construir uma atmosfera de agonia crescente. Acompanhamos Luzia ser lançada, quase contra a sua vontade, numa disputa brutal com outras pessoas talentosas para provar quem possui os maiores dons. 
O suspense reside no fato de que tudo isso ocorre sob o olhar implacável da caça às bruxas. Qualquer deslize, qualquer associação da sua magia com a bruxaria, significa a morte terrível na fogueira. O livro brinca de forma brilhante com as nossas certezas: as alianças desmoronam de uma página para a outra, e nunca sabemos ao certo em quem confiar. É uma leitura tensa, que nos prende pelos sobressaltos e que entrega um final altamente satisfatório, honrando a jornada dessa mulher que toma as rédeas do próprio destino.

Sinopse do Livro
Ambientado no chamado Século de Ouro da Espanha, numa época dominada pelo medo da Inquisição, o romance O Familiar acompanha a vida de Luzia Cotado, uma humilde criada que utiliza pequenos e discretos feitiços para facilitar o seu exaustivo trabalho na cozinha. No entanto, quando a sua patroa descobre esse talento, Luzia deixa de ser uma mera serva e passa a ser exibida como uma "milagreira" para elevar o status social da família. Rapidamente, ela é atirada para um submundo perigoso de nobres ambiciosos, alquimistas e charlatões, sendo forçada a participar num torneio implacável que decidirá quem será o campeão mágico do rei. Para sobreviver a essa corte traiçoeira e esconder a sua verdadeira natureza das fogueiras da Inquisição, ela precisará de uma aliança arriscada com Guillén Pérez de Santángel, um imortal "familiar" que carrega consigo os seus próprios segredos sombrios.

Carvão Animal – Ana Paula Maia

Minja opinião: Ler Carvão Animal foi mais uma confirmação do talento estonteante da Ana Paula Maia. Depois da experiência de leitura com Assim na Terra Como Embaixo da Terra, eu já esperava uma narrativa forte e visceral. E foi isso mesmo o que encontrei, mas atravessado por um sentimento que me surpreendeu muito: é uma história de uma crueza imensa, sim, mas pontuada por uma leveza estranha e muito bela.
A genialidade da autora está em transformar profissões que lidam com o horror absoluto em algo trivial da rotina. Acompanhamos a vida de dois irmãos cujas rotinas giram em torno do fogo e da tragédia: de um lado, Ernesto Wesley, um bombeiro incansável marcado por situações drásticas e tristes, que se habituou aos gritos e ao desespero da morte. Do outro, o seu irmão, Ronivon, que trabalha com os fornos de um crematório, apagando literalmente os vestígios físicos de quem já partiu.
Olhando de fora, parece o cenário perfeito para encontrar personagens embrutecidos, sem empatia e sem medo de nada. Mas não é verdade de jeito nenhum. A humanidade pulsa ali dentro. A cena da vizinha que tenta envenenar o cachorro deles é a prova disso: enquanto o mundo ao redor age com maldade, os irmãos, que enfrentam o inferno no trabalho todos os dias, continuam a tentar falar com ela, dispostos ao diálogo e ao entendimento.
A experiência de leitura foi muito sensorial. Eu sentia a história assumir um tom cinza na minha cabeça, a cor das cinzas, do cansaço e do asfalto. Eu imaginava perfeitamente cada cenário e os corpos carbonizados, mas com pessoas no centro de tudo que são intensamente reais, vivas e boas. Ana Paula Maia sabe como ninguém retirar a humanidade e o lirismo de lugares onde as pessoas são muitas vezes tratadas apenas como "refugo" social. É um livro duro que, ironicamente, reconforta.

Sinopse do Livro
Em Carvão Animal, Ana Paula Maia submerge-nos na realidade asfixiante de homens que vivem nas margens da sociedade, executando os "trabalhos sujos" de que ninguém quer cuidar. A trama centra-se na vida de dois irmãos cujas funções são indissociáveis do fogo: Ernesto Wesley atua como bombeiro num combate diário contra as chamas e o desespero, enquanto Ronivon cuida da incineração de corpos num crematório, reduzindo a existência física a ossos e a fragmentos de carvão animal. A eles junta-se ainda a figura do mineiro Edgar Wilson. Presos a esta dura rotina e a um quotidiano desolador que alterna entre um frio pesado e o calor dos fornos, os personagens tentam manter a sua dignidade, forjando formas amorais, mas profundamente humanas, de sobreviver perante a brutalidade e a falta de perspetivas de um mundo cinzento.

A Pediatra – Andréa del Fuego

Minha opinião: Há livros que nos confortam e há livros que nos causam um profundo estranhamento. A Pediatra pertence, sem dúvida, à segunda categoria. 
Confesso que terminei a leitura habitada por uma forte ambivalência: nem sei direito o que achei, gostei e não gostei. E o que incomoda tanto não é a escrita da autora, mas a crueza desconcertante e cínica da sua protagonista, Cecília.
Logo de início, somos confrontados com uma ironia brutal: uma médica neonatologista e pediatra que não tem a menor vocação para o ofício, não se interessa pela infância e não suporta criar vínculos. Ela é o retrato fiel de uma mediocridade profissional que, infelizmente, conhecemos tão bem na vida real. É o tipo de pessoa que escolhe a carreira por inércia, dinheiro ou status familiar, oferecendo o mínimo indispensável. No consultório, ela atende as chamadas, certifica-se de que o bebé está vivo e passa a mesma receita padronizada para todos, forçando indiretamente os pacientes a procurarem outro profissional por falta de orientação. 
Dá raiva, dá nervoso, mas é uma figura perturbadoramente realista.
O grande trunfo do livro, e também a sua maior armadilha para as nossas expectativas, é que ficamos aguardando uma redenção moral ou uma reviravolta ética que justifique a personagem. Esperamos que, em algum momento, ela desenvolva empatia pela empregada grávida ou pelas crianças que atende.
 Mas a autora não faz concessões ao clichê literário. A protagonista é movida por um egocentrismo tão calcificado que chega a dar medo. O outro simplesmente não tem lugar na sua vida, seja na esfera profissional ou na intimidade.
Tudo isso fica evidente na teia paradoxal das suas relações pessoais. É estranho ver como certas pessoas ainda gravitam à volta dela, como é o caso do seu amante. Quando ela desenvolve aquilo que acredita ser, pela primeira vez, um sentimento "diferente" pelo filho desse amante, rapidamente percebemos que não se trata de afeto genuíno. É apenas o reflexo do seu próprio narcisismo e do desejo de moldar o mundo à sua vontade. Cecília não é uma "vilã" caricata e diabólica; é apenas uma mulher muito comum e incapaz de investir na alteridade. Um livro instigante para pensar sobre as relações utilitaristas e a ausência absoluta de limites éticos e emocionais.

Sinopse do Livro
Em A Pediatra, acompanhamos a história de Cecília, uma médica neonatologista absolutamente desprovida de instinto maternal ou apreço pelas crianças e pelos pais que frequentam o seu consultório. A sua escolha profissional deu-se mais por comodidade e pela inércia de seguir os passos do pai médico do que por vocação genuína. A rotina asséptica e pragmática de Cecília — que envolve o seu trabalho apático e a forma fria como lida com as pessoas ao seu redor, incluindo a sua empregada doméstica, Deise, que está grávida — sofre um abalo quando ela começa a envolver-se com Celso, um homem casado. Curiosamente, é o filho desse amante, o menino Bruninho, em cujo nascimento ela esteve presente como neonatologista, que acaba por despertar na médica uma obsessão inédita e sentimentos desconcertantes. Escrito em primeira pessoa, com uma linguagem rápida e crua, o romance oferece um acesso sem filtros à mente cínica e julgadora da protagonista.

Tudo pode ser roubado – Giovana Madalosso

Minha opinião: Começo esta resenha confessando uma pequena contradição: por mais que eu busque narrativas que fujam dos finais mastigados, quase desejei que a história desaguasse naquele velho clichê de uma linda história de amor. Mas a genialidade de Giovana Madalosso está justamente em nos confrontar com a realidade das relações, sem as amenidades reconfortantes.

Para começar, um detalhe literário brilhante, se você tentou lembrar o nome da protagonista e não conseguiu, é porque ela simplesmente não tem nome na obra. Esse anonimato não é por acaso; é a marca registrada de alguém que desliza pela vida e pelas casas dos outros. Ela foge completamente daquela figura fofa, delicada e boazinha. É uma mulher que age, que rouba, que sobrevive no caos urbano e, o mais interessante de tudo, que vive na solidão e gosta genuinamente de estar lá.
Apesar dessa armadura, é nessa jornada furtiva que ela esbarra em encontros de amizade e na teia complexa das projeções humanas. O livro me fez refletir longamente sobre como podemos ser qualquer coisa que as pessoas desejem ver. O desejo tem essa capacidade de nos cegar; queremos tanto algo que ficamos fantasiando e deixamos de ver a pessoa real que está bem na frente do nosso nariz.
A relação dela com o professor ilustra isso de forma impecável. Ele não interage com quem ela é de verdade, mas com a idealização que criou. Ela se torna aquilo que ele deseja porque ele se recusa a perceber a realidade. O romance disseca maravilhosamente esse movimento: como as pessoas projetam os seus vazios umas nas outras e como os lugares que ocupamos muitas vezes existem apenas na fantasia de quem nos olha. Um livro que engana pelo ritmo ágil, mas que entrega uma elaboração fina sobre limites e desejos.

Sinopse do Livro
A protagonista anônima de Tudo pode ser roubado leva uma vida dupla na cidade de São Paulo. Oficialmente, trabalha como garçonete num restaurante bastante conhecido na região da Avenida Paulista. É nas horas vagas, no entanto, que ela faz as suas verdadeiras economias: aproveitando encontros fortuitos e casuais nas casas de homens e mulheres, ela furta roupas de grife e objetos de valor. A sua rotina sofre uma guinada quando um desconhecido a aborda com uma proposta altamente lucrativa e perigosa. A missão é roubar uma cobiçada primeira edição de O Guarani, de 1857. O alvo do furto é um professor universitário que arrematou a relíquia num leilão e se recusa veementemente a vendê-la. Para se aproximar da obra, a ladra precisará se infiltrar na vida do professor, mergulhando cada vez mais num submundo onde afetos, ilusões e aparências também são alvo de roub