sábado, 2 de maio de 2026

A Pediatra – Andréa del Fuego

Minha opinião: Há livros que nos confortam e há livros que nos causam um profundo estranhamento. A Pediatra pertence, sem dúvida, à segunda categoria. 
Confesso que terminei a leitura habitada por uma forte ambivalência: nem sei direito o que achei, gostei e não gostei. E o que incomoda tanto não é a escrita da autora, mas a crueza desconcertante e cínica da sua protagonista, Cecília.
Logo de início, somos confrontados com uma ironia brutal: uma médica neonatologista e pediatra que não tem a menor vocação para o ofício, não se interessa pela infância e não suporta criar vínculos. Ela é o retrato fiel de uma mediocridade profissional que, infelizmente, conhecemos tão bem na vida real. É o tipo de pessoa que escolhe a carreira por inércia, dinheiro ou status familiar, oferecendo o mínimo indispensável. No consultório, ela atende as chamadas, certifica-se de que o bebé está vivo e passa a mesma receita padronizada para todos, forçando indiretamente os pacientes a procurarem outro profissional por falta de orientação. 
Dá raiva, dá nervoso, mas é uma figura perturbadoramente realista.
O grande trunfo do livro, e também a sua maior armadilha para as nossas expectativas, é que ficamos aguardando uma redenção moral ou uma reviravolta ética que justifique a personagem. Esperamos que, em algum momento, ela desenvolva empatia pela empregada grávida ou pelas crianças que atende.
 Mas a autora não faz concessões ao clichê literário. A protagonista é movida por um egocentrismo tão calcificado que chega a dar medo. O outro simplesmente não tem lugar na sua vida, seja na esfera profissional ou na intimidade.
Tudo isso fica evidente na teia paradoxal das suas relações pessoais. É estranho ver como certas pessoas ainda gravitam à volta dela, como é o caso do seu amante. Quando ela desenvolve aquilo que acredita ser, pela primeira vez, um sentimento "diferente" pelo filho desse amante, rapidamente percebemos que não se trata de afeto genuíno. É apenas o reflexo do seu próprio narcisismo e do desejo de moldar o mundo à sua vontade. Cecília não é uma "vilã" caricata e diabólica; é apenas uma mulher muito comum e incapaz de investir na alteridade. Um livro instigante para pensar sobre as relações utilitaristas e a ausência absoluta de limites éticos e emocionais.

Sinopse do Livro
Em A Pediatra, acompanhamos a história de Cecília, uma médica neonatologista absolutamente desprovida de instinto maternal ou apreço pelas crianças e pelos pais que frequentam o seu consultório. A sua escolha profissional deu-se mais por comodidade e pela inércia de seguir os passos do pai médico do que por vocação genuína. A rotina asséptica e pragmática de Cecília — que envolve o seu trabalho apático e a forma fria como lida com as pessoas ao seu redor, incluindo a sua empregada doméstica, Deise, que está grávida — sofre um abalo quando ela começa a envolver-se com Celso, um homem casado. Curiosamente, é o filho desse amante, o menino Bruninho, em cujo nascimento ela esteve presente como neonatologista, que acaba por despertar na médica uma obsessão inédita e sentimentos desconcertantes. Escrito em primeira pessoa, com uma linguagem rápida e crua, o romance oferece um acesso sem filtros à mente cínica e julgadora da protagonista.

Nenhum comentário: