sábado, 2 de maio de 2026

Tudo pode ser roubado – Giovana Madalosso

Minha opinião: Começo esta resenha confessando uma pequena contradição: por mais que eu busque narrativas que fujam dos finais mastigados, quase desejei que a história desaguasse naquele velho clichê de uma linda história de amor. Mas a genialidade de Giovana Madalosso está justamente em nos confrontar com a realidade das relações, sem as amenidades reconfortantes.

Para começar, um detalhe literário brilhante, se você tentou lembrar o nome da protagonista e não conseguiu, é porque ela simplesmente não tem nome na obra. Esse anonimato não é por acaso; é a marca registrada de alguém que desliza pela vida e pelas casas dos outros. Ela foge completamente daquela figura fofa, delicada e boazinha. É uma mulher que age, que rouba, que sobrevive no caos urbano e, o mais interessante de tudo, que vive na solidão e gosta genuinamente de estar lá.
Apesar dessa armadura, é nessa jornada furtiva que ela esbarra em encontros de amizade e na teia complexa das projeções humanas. O livro me fez refletir longamente sobre como podemos ser qualquer coisa que as pessoas desejem ver. O desejo tem essa capacidade de nos cegar; queremos tanto algo que ficamos fantasiando e deixamos de ver a pessoa real que está bem na frente do nosso nariz.
A relação dela com o professor ilustra isso de forma impecável. Ele não interage com quem ela é de verdade, mas com a idealização que criou. Ela se torna aquilo que ele deseja porque ele se recusa a perceber a realidade. O romance disseca maravilhosamente esse movimento: como as pessoas projetam os seus vazios umas nas outras e como os lugares que ocupamos muitas vezes existem apenas na fantasia de quem nos olha. Um livro que engana pelo ritmo ágil, mas que entrega uma elaboração fina sobre limites e desejos.

Sinopse do Livro
A protagonista anônima de Tudo pode ser roubado leva uma vida dupla na cidade de São Paulo. Oficialmente, trabalha como garçonete num restaurante bastante conhecido na região da Avenida Paulista. É nas horas vagas, no entanto, que ela faz as suas verdadeiras economias: aproveitando encontros fortuitos e casuais nas casas de homens e mulheres, ela furta roupas de grife e objetos de valor. A sua rotina sofre uma guinada quando um desconhecido a aborda com uma proposta altamente lucrativa e perigosa. A missão é roubar uma cobiçada primeira edição de O Guarani, de 1857. O alvo do furto é um professor universitário que arrematou a relíquia num leilão e se recusa veementemente a vendê-la. Para se aproximar da obra, a ladra precisará se infiltrar na vida do professor, mergulhando cada vez mais num submundo onde afetos, ilusões e aparências também são alvo de roub

Nenhum comentário: