A genialidade da autora está em transformar profissões que lidam com o horror absoluto em algo trivial da rotina. Acompanhamos a vida de dois irmãos cujas rotinas giram em torno do fogo e da tragédia: de um lado, Ernesto Wesley, um bombeiro incansável marcado por situações drásticas e tristes, que se habituou aos gritos e ao desespero da morte. Do outro, o seu irmão, Ronivon, que trabalha com os fornos de um crematório, apagando literalmente os vestígios físicos de quem já partiu.
Olhando de fora, parece o cenário perfeito para encontrar personagens embrutecidos, sem empatia e sem medo de nada. Mas não é verdade de jeito nenhum. A humanidade pulsa ali dentro. A cena da vizinha que tenta envenenar o cachorro deles é a prova disso: enquanto o mundo ao redor age com maldade, os irmãos, que enfrentam o inferno no trabalho todos os dias, continuam a tentar falar com ela, dispostos ao diálogo e ao entendimento.
A experiência de leitura foi muito sensorial. Eu sentia a história assumir um tom cinza na minha cabeça, a cor das cinzas, do cansaço e do asfalto. Eu imaginava perfeitamente cada cenário e os corpos carbonizados, mas com pessoas no centro de tudo que são intensamente reais, vivas e boas. Ana Paula Maia sabe como ninguém retirar a humanidade e o lirismo de lugares onde as pessoas são muitas vezes tratadas apenas como "refugo" social. É um livro duro que, ironicamente, reconforta.
Sinopse do Livro
Em Carvão Animal, Ana Paula Maia submerge-nos na realidade asfixiante de homens que vivem nas margens da sociedade, executando os "trabalhos sujos" de que ninguém quer cuidar. A trama centra-se na vida de dois irmãos cujas funções são indissociáveis do fogo: Ernesto Wesley atua como bombeiro num combate diário contra as chamas e o desespero, enquanto Ronivon cuida da incineração de corpos num crematório, reduzindo a existência física a ossos e a fragmentos de carvão animal. A eles junta-se ainda a figura do mineiro Edgar Wilson. Presos a esta dura rotina e a um quotidiano desolador que alterna entre um frio pesado e o calor dos fornos, os personagens tentam manter a sua dignidade, forjando formas amorais, mas profundamente humanas, de sobreviver perante a brutalidade e a falta de perspetivas de um mundo cinzento.
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