segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ensaios de Despedida de Elisama Santos


Minha opinião: Iniciei a leitura de "Ensaios de Despedida", de Elisama Santos, com uma expectativa altíssima, vinda da experiência forte que tive com "Mesmo Rio", obra anterior da autora. Aqui, encontrei uma estrutura narrativa diferente, mas igualmente impactante: o livro é construído a partir de cartas de uma mãe para uma filha — cartas que a filha não lê, mas que servem como a única via possível para essa mulher elaborar o que sente.
É uma leitura intensa sobre as dualidades femininas: a vontade de partir versus a obrigação de ficar; o desejo de viver a própria vida versus a renúncia para que os outros vivam. A autora retrata com crueza como nos negamos como pessoas para caber no papel de cuidadora e como, muitas vezes, não conseguimos sair desse lugar. O livro me provocou uma reflexão profunda sobre o que fazemos no piloto automático: como o lugar do cuidado acaba ficando "marcado" em nós, mulheres, como uma segunda pele, nos aprisionando em funções que nos apagam, mesmo quando gritamos internamente por liberdade.

Sinopse
Em Ensaios de Despedida, Elisama Santos apresenta a intimidade de uma mulher que, prestes a completar 50 anos, decide rever sua trajetória através de cartas escritas para a filha e para a mãe já falecida. Através dessa correspondência unilateral, ela confessa os segredos de um casamento desgastado, a solidão acompanhada e o peso insustentável de ter vivido sempre em função das necessidades alheias. É um romance sobre o direito de mudar de rota, a complexidade das relações familiares e o custo emocional de ser a base de sustentação de todos, menos de si mesma.

Suíte Tóquio de Giovana Madalosso


Minha opinião: A leitura de "Suíte Tóquio", de Giovana Madalosso, foi uma experiência que me prendeu do início ao fim, especialmente pela estrutura narrativa que alterna entre as vozes das personagens, criando uma tensão constante. Inicialmente, a trama me despertou sentimentos ambíguos e muita raiva, não apenas pelo sequestro da criança em si, mas pela postura da mãe, Fernanda, que me pareceu extremamente relapsa. No entanto, ao longo da leitura, fui desconstruindo esse julgamento e entendendo a crítica social por trás dele: Fernanda age exatamente como um "pai tradicional" — ela sustenta a casa, prioriza a carreira e exerce o cuidado à sua maneira. Percebi que ela não seria criticada se fosse um homem desempenhando esse mesmo papel de provedor, o que escancara o peso desproporcional sobre a maternidade.
O livro explora esses papéis invertidos e a complexidade das relações de trabalho doméstico com uma força impressionante. A posição da babá, Maju, é retratada de forma dolorosa: uma mulher que não tem direito a ter vida própria, a ponto de precisar negociar uma folga para tentar engravidar. É chocante ver como o cuidado é mercantilizado e como existem abismos entre "o cuidado que não é cuidado" (a negligência afetiva) e "o cuidado que é cuidado" (o vínculo real, mesmo que em contextos perigosos). Os perigos, os encontros e os desencontros dessa história tornam a obra um estudo fascinante sobre classes sociais, afetos e a invisibilidade de quem cuida.

Sinopse
Em "Suíte Tóquio", uma babá decide levar a criança de quem cuida para um passeio não autorizado, desencadeando uma trama de suspense psicológico e crítica social. Enquanto a funcionária e a menina mergulham em uma jornada imprevisível, a narrativa alterna para o ponto de vista da mãe, uma executiva de televisão imersa em uma crise no casamento e na carreira. O desaparecimento da filha obriga a mãe a confrontar sua própria ausência e as falhas na dinâmica familiar. Giovana Madalosso constrói um thriller doméstico ágil que disseca as relações de poder, a culpa materna e as fronteiras tênues entre afeto e subordinação no Brasil contemporâneo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Os Supridores - José Falero


Minha opinião: Acabei de finalizar "Os Supridores", de José Falero, e a experiência foi intensa, especialmente porque optei pelo audiolivro: o sotaque e a oralidade mantidos ali são maravilhosos e tornam a história muito envolvente. O livro vai muito além da rotina de Pedro e Marques no supermercado; ele escancara a falácia da meritocracia, mostrando a busca brutal pelo financeiro e como, para quem nasce naquela realidade, o esforço não garante a vitória. A violência exposta na obra não é gratuita, ela aparece quase como uma sequência lógica e inevitável desse cenário de exclusão.
O que mais me marcou foi a construção psicológica do Pedro. Tive muita empatia por ele, pois não o vi apenas como um personagem revoltado, mas como alguém extremamente consciente. Ele é um rapaz de inteligência ímpar, com um potencial enorme — arrisco dizer que tem características de superdotação, mas acaba sufocado pelas dificuldades sociais e financeiras. Fica aquela reflexão martelando: imagine se ele tivesse nascido em outro berço? Sobre o desfecho, confesso que não gostei de início porque queria um final feliz para o Pedro, mas racionalmente achei ótimo e interessante. Foi coerente com a realidade dura apresentada e o fato de ele ter escrito a história foi o toque final perfeito. Que história!

Sinopse:
Ambientado na periferia de Porto Alegre, Os Supridores narra a trajetória de Pedro e Marques, dois amigos que trabalham repondo prateleiras em um grande supermercado. Pedro, um jovem de inteligência brilhante e articulação invejável, percebe com clareza cruel que o esforço braçal e a honestidade não serão suficientes para tirá-los da miséria, desmantelando a ilusão da meritocracia.
Cansados da invisibilidade e da exploração, a dupla decide "hackear" o sistema: eles resolvem entrar para o tráfico de drogas, mas aplicando uma lógica empresarial e organizada ao negócio ilícito. Com uma narrativa visceral que preserva a oralidade e o ritmo das ruas, José Falero constrói uma trama envolvente sobre amizade, o desperdício de potenciais intelectuais nas margens da sociedade e a violência como consequência lógica da desigualdade.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"O Som do Rugido da Onça" - Micheliny Verunschk


Minha opinião: Vou ser bem honesta: o começo dessa leitura foi um desafio. Nas primeiras 30 ou 40 páginas, eu me senti perdida, sem entender nada, navegando por vozes que se misturavam e tempos que não pareciam se encaixar. Pensei em desistir, mas persisti, e que bom que fiz isso.
Quando a neblina inicial baixa, o que emerge é uma história de uma tristeza e de uma revolta avassaladoras. O livro conta o destino de Iñe-e e Juri, duas crianças indígenas sequestradas no século XIX pelos cientistas Spix e Martius. Foram arrancadas de sua terra, de sua família e de sua sobrevivência por pura ganância e vaidade científica, levadas para a Europa para serem expostas como "peças de museu", tratadas como coisas, como monstros, como excentricidades.
A autora, Micheliny Verunschk, faz um trabalho genial (e difícil) de costurar a narrativa histórica fria com a "voz da onça", isso mesmo, uma voz ancestral, poética e mítica. No início, essa voz assusta e confunde, mas depois entendemos que ela é a única forma de devolver a humanidade a essas crianças. É a autora transformando o drama absoluto em uma história de resistência.
O que fica no final é a percepção de que, embora os cientistas tenham levado os corpos, eles não conseguiram capturar o espírito. Os povos originários e suas crenças permanecem, ecoam e resistem até hoje, enquanto aqueles que os roubaram viraram pó e esquecimento. Muitas vezes passamos despercebidos por essas histórias, como se não fossem nossas, como se não nos interessassem. Mas interessam. E muito. É uma leitura difícil, que exige paciência, mas que recompensa com uma visão necessária sobre quem somos e sobre as feridas que ainda estão abertas.

Sinopse:
Em 1817, os naturalistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius desembarcam no Brasil com a missão de catalogar a fauna e a flora locais. Ao retornarem para Munique três anos depois, levam consigo não apenas amostras de plantas e animais, mas também duas crianças indígenas: Iñe-e e Juri.
Arrancados de sua terra natal e levados para um ambiente frio e hostil, os dois jovens são transformados em objetos de estudo e curiosidade exótica, tendo suas identidades e humanidade progressivamente apagadas em nome da ciência. Entrelaçando o fato histórico do século XIX com a voz de uma narradora contemporânea que reencontra os vestígios dessas crianças em um museu, Micheliny Verunschk constrói uma narrativa potente sobre desenraizamento, memória colonial e a força mítica daqueles que a história tentou silenciar.

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Biblioteca da Meia-Noite (The Midnight Library), de Matt Haig


Minha opinião: Terminei a leitura de A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig. Sabe aquele filme Efeito Borboleta? O livro traz uma temática parecida, mas um pouco mais leve: a possibilidade de viver várias vidas dependendo das escolhas que fazemos (ou deixamos de fazer).
As primeiras páginas já entregam o jogo: do nada, várias pessoas do passado da protagonista aparecem para lembrá-la das decisões que ela não tomou. É aquele começo que já mostra exatamente para onde a história vai.

Quando ela chega na tal biblioteca e começa a experimentar essas "outras vidas", senti falta de aprofundamento. Tudo é tratado de forma bem superficial. As vidas alternativas passam rápido, sem muita densidade, sem aquele mergulho psicológico real.

Fica claro que é um livro "para vender": uma história redondinha, que prende a atenção, mas que não traz intensidade. É um livro curto, nada denso e muito fácil de ler. As coisas vão se desenrolando e se "consertando" exatamente como a gente espera, sem nada que chame muito a atenção ou surpreenda.

No fim das contas, é como um filme de Sessão da Tarde: aquele que serve para distrair a cabeça num fim de semana, que é gostosinho de acompanhar, mas que não foi feito para trazer grandes reflexões filosóficas. É entretenimento puro e simples.

Sinopse 

Nora Seed é uma mulher de 35 anos cheia de talentos, mas também cheia de arrependimentos. Sentindo-se inútil e sozinha, após ser demitida e perder seu gato, ela decide tirar a própria vida.
No entanto, em vez de morrer, Nora acorda em uma biblioteca infinita, situada entre a vida e a morte. Lá, o tempo para, e cada livro na estante oferece a chance de viver uma vida que ela poderia ter tido se tivesse feito escolhas diferentes: e se ela não tivesse desistido da natação? E se tivesse casado com o ex-noivo? E se tivesse continuado na banda de rock do irmão?
Guiada pela bibliotecária da sua infância, a Sra. Elm, Nora embarca em uma jornada através de dezenas de realidades paralelas para tentar encontrar a vida "perfeita" onde ela possa finalmente ser feliz, antes que o tempo na biblioteca se esgote.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Amêndoas (Almond), de Won-pyung Sohn


Minha opinião: Ganhei esse livro de presente da minha filha hoje e, acreditem, devorei tudo no mesmo dia! A história me prendeu de um jeito que eu não conseguia largar.

O livro conta a história de Yunjae, um jovem que nasceu com uma condição neurológica que o impede de sentir emoções ou descrevê-las (alexitimia). Eu achei essa premissa fascinante desde o início. A narrativa flui tanto que a gente nem percebe o tempo passar; é um verdadeiro mergulho na mente dele.
Yunjae vai nos contando sua história, suas perdas e, principalmente, como é difícil ser "diferente" em um mundo que exige o tempo todo que você seja "normal". Essa parte tocou meu coração de mãe de um jeito especial.

Minha filha é autista e eu sei, na pele, o quanto a vida pode ser complicada para ela e o quanto é angustiante para mim. Como mãe, muitas vezes a gente só queria ter o poder de mudar o mundo para que todos entendessem e respeitassem nossos filhos. Por isso, eu entendi profundamente a mãe do Yunjae. Mesmo quando ela tentava "treiná-lo" para parecer normal, eu senti que não era por mal, mas uma tentativa desesperada de fazer com que ele não sofresse, de criar uma armadura para ele, mesmo que ele não entendesse isso na época.

Outro ponto alto é a amizade improvável que ele cria com Gon. A autora constrói um contraste incrível entre os dois: um que não sente nada e outro que sente tudo com raiva e excesso. O livro nos faz refletir sobre como as pessoas são, como gostaríamos que elas fossem e como tudo poderia ser mais simples se houvesse mais empatia.
Amêndoas é um livro ótimo, sensível e necessário. Terminei a leitura com o coração cheio.

Sinopse

Yunjae nasceu com uma condição cerebral chamada alexitimia, o que significa que suas amígdalas (as estruturas no cérebro responsáveis pelo processamento de emoções) são subdesenvolvidas — pequenas como amêndoas. Como resultado, Yunjae não sente medo, raiva, tristeza ou alegria. Para ele, o mundo é confuso, e as pessoas são charadas indecifráveis.
Criado por sua mãe e avó, ele é treinado diariamente para memorizar expressões faciais e respostas sociais "corretas" para tentar se misturar e não chamar atenção. Porém, no seu aniversário de 16 anos, uma tragédia violenta deixa Yunjae sozinho no mundo, sem sua rede de proteção.
É então que ele conhece Gon, um garoto problemático, violento e cheio de cicatrizes emocionais, que é o seu oposto exato. O livro narra o desenvolvimento dessa amizade improvável entre um monstro que não sente nada e um monstro que sente demais, explorando se é possível aprender a sentir e o que realmente significa ser humano.