terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"O Som do Rugido da Onça" - Micheliny Verunschk


Minha opinião: Vou ser bem honesta: o começo dessa leitura foi um desafio. Nas primeiras 30 ou 40 páginas, eu me senti perdida, sem entender nada, navegando por vozes que se misturavam e tempos que não pareciam se encaixar. Pensei em desistir, mas persisti, e que bom que fiz isso.
Quando a neblina inicial baixa, o que emerge é uma história de uma tristeza e de uma revolta avassaladoras. O livro conta o destino de Iñe-e e Juri, duas crianças indígenas sequestradas no século XIX pelos cientistas Spix e Martius. Foram arrancadas de sua terra, de sua família e de sua sobrevivência por pura ganância e vaidade científica, levadas para a Europa para serem expostas como "peças de museu", tratadas como coisas, como monstros, como excentricidades.
A autora, Micheliny Verunschk, faz um trabalho genial (e difícil) de costurar a narrativa histórica fria com a "voz da onça", isso mesmo, uma voz ancestral, poética e mítica. No início, essa voz assusta e confunde, mas depois entendemos que ela é a única forma de devolver a humanidade a essas crianças. É a autora transformando o drama absoluto em uma história de resistência.
O que fica no final é a percepção de que, embora os cientistas tenham levado os corpos, eles não conseguiram capturar o espírito. Os povos originários e suas crenças permanecem, ecoam e resistem até hoje, enquanto aqueles que os roubaram viraram pó e esquecimento. Muitas vezes passamos despercebidos por essas histórias, como se não fossem nossas, como se não nos interessassem. Mas interessam. E muito. É uma leitura difícil, que exige paciência, mas que recompensa com uma visão necessária sobre quem somos e sobre as feridas que ainda estão abertas.

Sinopse:
Em 1817, os naturalistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius desembarcam no Brasil com a missão de catalogar a fauna e a flora locais. Ao retornarem para Munique três anos depois, levam consigo não apenas amostras de plantas e animais, mas também duas crianças indígenas: Iñe-e e Juri.
Arrancados de sua terra natal e levados para um ambiente frio e hostil, os dois jovens são transformados em objetos de estudo e curiosidade exótica, tendo suas identidades e humanidade progressivamente apagadas em nome da ciência. Entrelaçando o fato histórico do século XIX com a voz de uma narradora contemporânea que reencontra os vestígios dessas crianças em um museu, Micheliny Verunschk constrói uma narrativa potente sobre desenraizamento, memória colonial e a força mítica daqueles que a história tentou silenciar.

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Biblioteca da Meia-Noite (The Midnight Library), de Matt Haig


Minha opinião: Terminei a leitura de A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig. Sabe aquele filme Efeito Borboleta? O livro traz uma temática parecida, mas um pouco mais leve: a possibilidade de viver várias vidas dependendo das escolhas que fazemos (ou deixamos de fazer).
As primeiras páginas já entregam o jogo: do nada, várias pessoas do passado da protagonista aparecem para lembrá-la das decisões que ela não tomou. É aquele começo que já mostra exatamente para onde a história vai.

Quando ela chega na tal biblioteca e começa a experimentar essas "outras vidas", senti falta de aprofundamento. Tudo é tratado de forma bem superficial. As vidas alternativas passam rápido, sem muita densidade, sem aquele mergulho psicológico real.

Fica claro que é um livro "para vender": uma história redondinha, que prende a atenção, mas que não traz intensidade. É um livro curto, nada denso e muito fácil de ler. As coisas vão se desenrolando e se "consertando" exatamente como a gente espera, sem nada que chame muito a atenção ou surpreenda.

No fim das contas, é como um filme de Sessão da Tarde: aquele que serve para distrair a cabeça num fim de semana, que é gostosinho de acompanhar, mas que não foi feito para trazer grandes reflexões filosóficas. É entretenimento puro e simples.

Sinopse 

Nora Seed é uma mulher de 35 anos cheia de talentos, mas também cheia de arrependimentos. Sentindo-se inútil e sozinha, após ser demitida e perder seu gato, ela decide tirar a própria vida.
No entanto, em vez de morrer, Nora acorda em uma biblioteca infinita, situada entre a vida e a morte. Lá, o tempo para, e cada livro na estante oferece a chance de viver uma vida que ela poderia ter tido se tivesse feito escolhas diferentes: e se ela não tivesse desistido da natação? E se tivesse casado com o ex-noivo? E se tivesse continuado na banda de rock do irmão?
Guiada pela bibliotecária da sua infância, a Sra. Elm, Nora embarca em uma jornada através de dezenas de realidades paralelas para tentar encontrar a vida "perfeita" onde ela possa finalmente ser feliz, antes que o tempo na biblioteca se esgote.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Amêndoas (Almond), de Won-pyung Sohn


Minha opinião: Ganhei esse livro de presente da minha filha hoje e, acreditem, devorei tudo no mesmo dia! A história me prendeu de um jeito que eu não conseguia largar.

O livro conta a história de Yunjae, um jovem que nasceu com uma condição neurológica que o impede de sentir emoções ou descrevê-las (alexitimia). Eu achei essa premissa fascinante desde o início. A narrativa flui tanto que a gente nem percebe o tempo passar; é um verdadeiro mergulho na mente dele.
Yunjae vai nos contando sua história, suas perdas e, principalmente, como é difícil ser "diferente" em um mundo que exige o tempo todo que você seja "normal". Essa parte tocou meu coração de mãe de um jeito especial.

Minha filha é autista e eu sei, na pele, o quanto a vida pode ser complicada para ela e o quanto é angustiante para mim. Como mãe, muitas vezes a gente só queria ter o poder de mudar o mundo para que todos entendessem e respeitassem nossos filhos. Por isso, eu entendi profundamente a mãe do Yunjae. Mesmo quando ela tentava "treiná-lo" para parecer normal, eu senti que não era por mal, mas uma tentativa desesperada de fazer com que ele não sofresse, de criar uma armadura para ele, mesmo que ele não entendesse isso na época.

Outro ponto alto é a amizade improvável que ele cria com Gon. A autora constrói um contraste incrível entre os dois: um que não sente nada e outro que sente tudo com raiva e excesso. O livro nos faz refletir sobre como as pessoas são, como gostaríamos que elas fossem e como tudo poderia ser mais simples se houvesse mais empatia.
Amêndoas é um livro ótimo, sensível e necessário. Terminei a leitura com o coração cheio.

Sinopse

Yunjae nasceu com uma condição cerebral chamada alexitimia, o que significa que suas amígdalas (as estruturas no cérebro responsáveis pelo processamento de emoções) são subdesenvolvidas — pequenas como amêndoas. Como resultado, Yunjae não sente medo, raiva, tristeza ou alegria. Para ele, o mundo é confuso, e as pessoas são charadas indecifráveis.
Criado por sua mãe e avó, ele é treinado diariamente para memorizar expressões faciais e respostas sociais "corretas" para tentar se misturar e não chamar atenção. Porém, no seu aniversário de 16 anos, uma tragédia violenta deixa Yunjae sozinho no mundo, sem sua rede de proteção.
É então que ele conhece Gon, um garoto problemático, violento e cheio de cicatrizes emocionais, que é o seu oposto exato. O livro narra o desenvolvimento dessa amizade improvável entre um monstro que não sente nada e um monstro que sente demais, explorando se é possível aprender a sentir e o que realmente significa ser humano.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves


Minha opinião: Nossa, que livro, hein! Terminei a leitura de Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, e ainda estou sentindo o impacto.
A história já começa pegando a gente de jeito, mostrando a força e a brutalidade vividas pela protagonista, Kehinde (batizada como Luísa no Brasil), ainda em sua infância na África. Todo o contexto da escravidão, a luta pela sobrevivência e a dureza das situações são narrados de uma forma que dói, mas que não nos deixa largar o livro.

Confesso que, apesar de todo o sofrimento, as pequenas e grandes vitórias de Kehinde faziam com que eu mantivesse a fé e a esperança. Acho que é por isso que, mesmo sendo um calhamaço gigante (quase mil páginas!), a leitura flui. Especialmente na primeira metade, as coisas acontecem e "desacontecem" com muita rapidez; é muita novidade, muita reviravolta.

O que mais me impressionou foi a capacidade da autora de nos fazer ver e perceber o amadurecimento da personagem. Acompanhamos Kehinde crescendo, desenvolvendo novos medos, outros anseios e questões mais complexas. Ela se torna uma mulher marcante, forte, poderosa e, às vezes, até impiedosa. Mas é, acima de tudo, sincera em sua fraqueza e em seus medos.

E a busca pelo filho... ah, a busca pelo filho! Kehinde passa a vida procurando por Omotunde (o menino que viria a ser Luiz Gama). Essa angústia foi tão bem escrita que mexeu comigo num nível profundo: cheguei a sonhar com o livro! No meu sonho, eu estava lá, junto com a personagem, buscando desesperadamente por ele.

Além da trama emocional, é uma aula de história. A autora pesquisou muito, e isso fica nítido. Acompanhamos o trânsito entre Brasil e África, mergulhamos nas religiões e religiosidades sem preconceitos, mas com muita fé e respeito.

Um Defeito de Cor não é apenas um livro; é uma experiência. É uma daquelas leituras que a gente tem que fazer na vida. Recomendo com toda a minha alma.

Sinopse 

Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves
O romance épico narra a trajetória de Kehinde, uma mulher africana que, ainda criança, é capturada, escravizada e trazida para o Brasil no século XIX. Inspirada na figura histórica de Luísa Mahin (mãe do abolicionista Luiz Gama), a personagem nos guia por oito décadas de uma vida extraordinária.
No Brasil, Kehinde luta contra a violência da escravidão, consegue comprar sua alforria através do trabalho e se torna uma empresária respeitada. No entanto, sua vida é marcada por uma tragédia pessoal: o desaparecimento de seu filho, Omotunde, vendido ilegalmente pelo próprio pai branco para pagar dívidas de jogo.
A narrativa é uma longa carta deixada por uma Kehinde já idosa e cega, que retorna à África (Benim) e decide contar sua história na esperança de que, um dia, seu filho a leia e saiba quem foi sua mãe. O livro atravessa ciclos econômicos, revoltas sociais e a formação da identidade brasileira, sempre pelo olhar de uma mulher que se recusou a ser vencida.

sábado, 27 de dezembro de 2025

A Vida Invisível de Addie LaRue (The Invisible Life of Addie LaRue), de V.E. Schwab


Minha opinião: A Vida Invisível de Addie LaRue: Uma ideia genial desperdiçada em um drama adolescente.

Esse livro foi uma indicação e eu fui com a mente aberta. Afinal, a premissa de fantasia é muito interessante: uma mulher que, após uma maldição, passa a ser esquecida por todos assim que sai de vista. Ela não pode criar laços, não pode deixar marcas, nada.

Eu gostei muito desse conceito inicial. Tinha tudo para ser um tema filosófico incrível! Imaginem só as reflexões sobre como seria uma vida sem poder se vincular com ninguém, sobre o que define a nossa existência através da memória do outro.

Mas... não foi bem assim.
Sinceramente? A história se arrasta. O livro enrola, enrola e enrola. A protagonista, Addie, é passiva, sem vigor, sem emoção. As situações se tornam extremamente repetitivas. A autora poderia retirar tranquilamente umas cem páginas e a história não perderia nada.

Lá no meio do livro (finalmente!) ela encontra um rapaz que consegue se lembrar dela. Nessa hora eu pensei: "Opa, agora vai! Agora melhora...". Mas foi só ilusão. Tudo volta a se repetir, criando uma expectativa de emoção que nunca chega de verdade.

Acho que o problema principal é que o livro tem uma pegada muito adolescente. Isso me incomodou bastante. No momento de vida e leitura em que estou, prefiro algo mais intenso, forte, visceral. Não tive paciência para algo tão superficial, com personagens pouco estruturados e dramas que não se aprofundam. Uma pena pelo desperdício da ideia.

Sinopse 

França, 1714. Desesperada para escapar de um casamento arranjado e de uma vida comum, a jovem Adeline LaRue faz uma prece aos deuses errados e firma um pacto faustiano com a escuridão. Em troca da liberdade e da imortalidade, ela recebe uma maldição terrível: ser esquecida por todos que conhece. Assim que ela sai de um cômodo, desaparece da memória das pessoas, impedida de deixar qualquer marca no mundo.
Por 300 anos, Addie vaga pela história e pelos continentes, aprendendo a sobreviver nas brechas, tornando-se uma musa anônima para artistas e vivendo uma existência solitária.
Tudo muda em uma livraria de Nova York, em 2014, quando ela encontra Henry, um rapaz que, após um encontro, diz as três palavras que ela não ouvia há séculos: "Eu lembro de você". Agora, Addie precisa descobrir por que a maldição falhou com ele e qual é o verdadeiro custo de ser lembrada.

Assim na Terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia


Minha opinião: Olha, esse livro é forte. Não tem outra palavra para começar. Acabei de ler Assim na Terra como embaixo da terra, da Ana Paula Maia, e ainda estou processando.

Eu gostei muito, mas é aquele gostar que vem acompanhado de um soco no estômago. A autora narra tudo de uma maneira muito crua, sem enfeites. A história nos leva para um lugar onde o ser humano é reduzido a nada, torna-se um mero objeto que pode ser desfeito a qualquer momento, porque ali não existe respeito algum pela vida.

Eu vi na leitura uma crítica social pesadíssima sobre o "esquecimento". Sobre aqueles lugares para onde a sociedade manda as pessoas que ela quer esquecer. E o mais perturbador é ver como o sistema (representado pela Colônia) faz exatamente a mesma coisa da qual os prisioneiros são acusados, usando a punição como desculpa para cometer atrocidades ainda piores.

A gente termina se perguntando: afinal, quem é que está sendo o verdadeiro criminoso aqui? Os que estão presos ou os que vigiam?
Eu adorei o livro pela coragem de tocar nessas feridas. Já estou aqui buscando os outros livros da autora para ler, porque essa escrita visceral me conquistou. Leiam, mas preparem o estômago.

Sinopse 
Assim na Terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia
Uma colônia penal isolada, construída sobre um terreno antigo de tortura e morte, é o cenário deste thriller brutal. O local, destinado a presos que o sistema quer fazer desaparecer, é comandado pelo sádico chefe Melquíades.
Ali, a lei não existe. Os prisioneiros não estão apenas cumprindo pena; eles são caçados. Para evitar a superlotação e satisfazer os instintos violentos da guarda, o chefe instituiu uma temporada de caça humana, onde os detentos são soltos na mata para serem perseguidos e abatidos como animais.
A narrativa, seca e direta, foca na desumanização absoluta e no terror institucionalizado, questionando os limites da maldade humana e a linha tênue que separa a civilização da barbárie.