domingo, 19 de outubro de 2025

O AMOR E SUA FOME – Lorena Portela

Minha opinião: Eu comecei O amor e sua fome sem saber muito bem o que esperar e talvez por isso a leitura tenha me surpreendido tanto. A protagonista, Dora, narra sua história desde a infância, e é impressionante como Lorena Portela consegue transformar memórias aparentemente simples em algo cheio de tensão emocional. Acompanhamos suas primeiras relações, as amizades que nascem meio tortas, as inimizades veladas, as formas de amar que ela tenta compreender — ora se aproximando, ora se afastando como se amar fosse sempre um movimento de risco.

A relação dela com Esme, sua amiga, é um dos pontos mais intensos do livro. Há ali uma energia difícil de nomear — amor, desejo, ciúme, raiva, encantamento — tudo misturado em uma linguagem que nunca precisa gritar para ser profunda.

O livro fala muito sobre essa contradição humana de querer o outro, mas ao mesmo tempo temer o vínculo; de desejar proximidade e se proteger dela; de sentir e tentar negar o próprio sentimento.

Ao longo da narrativa, algo muda. Seja por um movimento do inconsciente, seja por algo espiritual — e o livro deixa essa dúvida aberta — uma força atravessa tudo e altera o curso da vida de Dora. Não é uma mudança espetacular, é algo sutil que se infiltra, silenciosamente, como se o próprio destino se movesse alguns milímetros e isso fosse suficiente para mudar tudo.

A escrita tem uma força visceral, mas ao mesmo tempo é delicada, quase como se a autora soubesse exatamente onde tocar para criar incômodo sem violência, emoção sem exagero.

É um livro que mexe, mas sem pressa — ele permite sentir, e não apenas ler. Um romance para se entregar, não para passar rápido. Um livro para habitar um pouco a gente depois que termina.

Sinopse: Dora cresce observando o mundo com uma fome que não sabe nomear — fome de afeto, de pertencimento, de liberdade e, principalmente, de algo que dê sentido ao que ela sente e não consegue dizer. A narrativa acompanha sua infância e adolescência, marcada por amizades intensas, raivas silenciosas e afetos que nascem nas frestas do que é permitido. A relação com Esme, sua amiga mais marcante, concentra tensões amorosas e emocionais que escapam das definições comuns: é amor, é desejo, é dor, é uma mistura de tudo. Conforme Dora cresce, também cresce a consciência de si — e com ela a percepção de que amar é sempre um campo de risco, um espaço entre querer se aproximar e o medo de se perder. Entre memórias, corpo, inconsciente e uma possível força invisível que atravessa os acontecimentos, o livro revela uma jornada íntima sobre o que é amar e sobre o que a fome de amor é capaz de fazer com uma vida.

A INCONVENIENTE LOJA DE CONVENIÊNCIA – Kim Ho-yeon


Minha opinião: Achei esse livro muito bonito e delicado. Ele fala sobre algo que às vezes esquecemos: a capacidade de acreditar nas pessoas, na mudança, na bondade. A dona da loja faz isso de forma simples, sem discursos — ela confia, e essa confiança vira um gatilho de transformação para todos ao redor.

O personagem em situação de rua é um dos pontos mais tocantes. Ele não é romantizado — ele é humano, com falhas, vergonha, raiva, medo. E justamente por isso, ver o processo de recuperação da autoestima e da dignidade dele foi muito forte para mim. É quase como assistir a uma terapia feita de gestos simples: um café quente, uma tarefa cumprida, um olhar que não julga.

Não é sobre dinheiro. É sobre valor emocional, moral, humano — e a descoberta desse valor ao longo da narrativa é lindíssima.

💗 Um livro para guardar com carinho

A leitura me deixou com aquela sensação boa de esperança discreta, aquela que não faz barulho, mas acende uma luzinha dentro da gente. Às vezes é disso que precisamos: de histórias que lembram que o mundo ainda pode ser gentil.

Perfeito para quem:

Gosta de narrativas de afeto e transformação interior

Valoriza personagens que se constroem de dentro para fora

Acredita que gentilezas pequenas podem mudar destinos inteiros

Sinopse: Em um bairro comum de Seul, uma pequena loja de conveniência funciona madrugada adentro — um lugar aparentemente simples, mas que se torna ponto de encontro para pessoas desgastadas pela vida. A gerente, com seu jeito tranquilo e acolhedor, contrata um homem em situação de rua para trabalhar no turno noturno. A partir daí, pequenas mudanças começam a acontecer — não só nele, mas em todos os que circulam por aquele espaço. A loja vira um lugar de reencontros consigo mesmo, de dignidade e de recomeços silenciosos.



NIHONJIN – Oscar Nakasato


Minha opinião: Sou descendente de japoneses, mas de um jeito muito diferente do vivido no livro. Meus avós também vieram do Japão, depois da guerra, mas ao chegarem aqui escolheram ser brasileiros. Tanto que meu pai quase não fala japonês — a ideia era romper, não manter.

Por isso, ler Nihonjin foi uma experiência curiosa: enquanto os personagens carregavam o Japão no corpo, no idioma, nos ritos e até no sonho constante de retorno, eu me dei conta de que na minha família esse fio cultural não foi passado adiante. E ainda assim, alguma coisa desse pertencimento silencioso existe em mim — talvez justamente na forma de ausência.

O livro me despertou um olhar bonito e melancólico sobre pertencimento e deslocamento, além da força dos ritos e da memória como forma de resistência cultural.

A pergunta que fica: o que acontece quando a cultura é interrompida — ela desaparece ou se transforma em outra coisa?

Mesmo sem ter vivido essa tradição de forma direta, o livro me deu uma sensação estranha e bonita — como sentir saudade de uma história que não me foi contada.

Pra quem esse livro fala com força

Quem tem origem migrante — mesmo que a cultura tenha se diluído

Quem gosta de narrativas de memória, silêncio e identidade

Quem aprecia literatura brasileira que fala de nós a partir das margens

Talvez seja isso que Nihonjin faz: ele abre uma gaveta de memórias — mesmo para quem nunca recebeu as chaves.

Sinopse: Nihonjin acompanha a trajetória de uma família japonesa que migra para o Brasil no início do século XX. Carregando memórias da guerra e de um Japão idealizado, eles tentam construir uma nova vida enquanto mantêm — ou lutam para manter — seus costumes, língua e senso de identidade. Entre o desejo de pertencimento e o chamado silencioso da terra natal, o romance explora como a cultura se transforma, resiste ou se perde quando atravessa o oceano.

O CONTO DA AIA – Margaret Atwood


Minha opinião: Esse é daqueles livros que chegam carregados de fama. Eu já tinha ouvido falar muito — série, discussões, referências — e confesso: fui com a expectativa lá no alto. E talvez justamente por isso… achei apenas ok.

Não que seja ruim — a escrita prende, o mundo é perturbador e a narrativa da protagonista tem uma introspecção interessante. Eu queria continuar lendo, sim. Mas aquele impacto de “meu Deus, obra-prima” que eu esperava… não veio.

O que mais mexeu comigo foi pensar que tudo ali parece absurdo… mas também possível. Um mundo em que as violências contra as mulheres são institucionalizadas com naturalidade, em que o horror é disfarçado de ordem e religião, onde tudo parece “certo”, mas algo está sempre profundamente torto. E o pior: todos fingem que acreditam.

Esse incômodo eu gostei de sentir. Aquela sensação que fica na cabeça: “gente, isso podia acontecer de verdade”.

Preciso dizer com sinceridade: achei o final bobo. Me pareceu corrido, quase como se tudo terminasse num “tá, e é isso”. Depois de uma construção tão forte de atmosfera e tensão, esperei algo mais impactante — algo que me fizesse fechar o livro em silêncio dramático. Mas não veio.

Foi uma boa leitura, com reflexões atuais e uma construção de mundo perturbadoramente realista. Só que, diferente de muita gente, eu não achei brilhante — e tudo bem. Talvez se eu tivesse lido sem toda a fama em volta, a experiência teria sido diferente.

Recomendado para quem:

Curte distopia social com crítica forte e incômoda

Gosta de narrativas em primeira pessoa, introspectivas e irônicas

Quer refletir sobre poder, corpo e controle

 Pode frustrar quem:

Vai esperando uma reviravolta explosiva ou final arrebatador

Precisa de ação constante

Está com dificuldade de lidar com hype — talvez valha ler com expectativas mais baixas

Sinopse: Em um futuro opressor, a República de Gilead toma o poder e instaura um regime teocrático rigidamente controlado. Com a queda da fertilidade no mundo, as poucas mulheres ainda capazes de gerar filhos são escravizadas como Aias, obrigadas a servir às famílias dos Comandantes para garantir descendência. Offred, agora reduzida a um nome que nem é seu, narra seu cotidiano nesse sistema cruel, observando as pequenas formas de resistência, as mentiras mascaradas de ordem e a manipulação que transforma violência em “dever sagrado”.

NO ESPAÇO ENTRE NÓS – Elayne Baeta (Audible Original)


Minha opinião: Esse foi meu primeiro Audible Original com formato de novela, e isso já ganhou pontos. Tem várias vozes, ambientação sonora, ruídos de cenário, comunicações por rádio, barulhos de nave… quase como ouvir uma série sci-fi em áudio. A produção é caprichada, e isso deixou a experiência super imersiva.

MAS… (e aqui vem o mas...)
A protagonista é insuportável. Ego inflado, zero ética, se acha a última bolacha recheada da psicologia de IA — e pior, faz tudo com a maior certeza de que está absolutamente correta. Eu ouvia e pensava: “Nossa, que chata… nossa, que chata…” — e continuei ouvindo mesmo assim! Ou seja, a personagem irrita, mas a trama segura.

Terminei os dois volumes com aquela sensação de: “ok, queria bater nela, mas gostei da experiência”. Então valeu a pena!

Vou falar sobre o que me chamou atenção:

- Formato novela em áudio – MUITO bem feito, parece série.

- Futuro brasileiro com IA central controlando a internet — adorei esse detalhe de ambientar no Brasil, e não nos EUA pela milésima vez.

- Mistura de luto, tecnologia e terapia — ideia ousada.

- Protagonista arrogante nível “meu Deus, tira o microfone dela”.

- Ética profissional? Foi tomar um café e não voltou.

Não é um audiolivro “para amar a personagem”, e talvez essa seja até a proposta. Eu gostei da experiência, do formato e do universo criado. O incômodo que senti também virou parte da reflexão — porque ouvir alguém tão desagradável em posição de poder mexe com a gente.

Recomendado para quem gosta de:

Ficção futurista ambientada no Brasil

Narrativas com tecnologia + psicologia

Formatos imersivos com som e múltiplas vozes

 Não recomendado para:

Quem precisa simpatizar com o protagonista pra seguir na história

Sinopse: Em um Brasil futurista, hiper conectado e comandado por uma inteligência artificial central chamada Aurora, acompanhamos Eva, uma especialista em psicologia de I.A. que carrega um luto profundo pela morte de sua companheira, Nina. Em um misto de obrigação profissional e desespero emocional, ela aceita participar de sessões terapêuticas conduzidas pela própria Aurora — uma entidade que controla toda a rede digital do país, inclusive o espaço orbital de dados. O que começa como um experimento tecnológico se transforma em uma investigação íntima sobre memória, amor, ética e o limite entre humanidade e máquina.

domingo, 5 de outubro de 2025

Em Agosto Nos Vemos, de Gabriel García Márquez


Minha opinião: Eu não tinha lido nada sobre Em Agosto Nos Vemos antes de começar — e talvez isso tenha sido o melhor caminho. Escolhi o livro pelo nome de García Márquez, que sempre me conduz a histórias que parecem simples, mas carregam camadas de alma e tempo.

A narrativa gira em torno de Ana Magdalena Bach, uma mulher casada que, todos os anos, viaja em agosto para uma ilha onde está enterrada a mãe. Nessa viagem repetida, ela começa a experimentar uma outra vida, como se naquele espaço houvesse uma brecha do tempo em que pudesse existir diferente — mais livre, mais inteira, talvez mais verdadeira.

É como se, entre o barco e o hotel, entre a visita ao túmulo e o retorno para casa, algo dentro dela se abrisse. Há uma busca que não tem nome — talvez amor, talvez desejo, talvez apenas o impulso de ser mais do que a rotina permite. Ana não foge de sua vida; ela a dobra um pouco, só o bastante para respirar.

Li o livro como quem acompanha uma lembrança, com aquela melancolia leve que García Márquez sabe construir tão bem. É uma história sobre redescoberta, envelhecimento e liberdade, contada com uma delicadeza que parece sopro. Um texto curto, mas cheio de ecos — desses que ficam pairando na cabeça mesmo depois da última página.

Um livro bonito, sobre as vidas que poderiam ter sido, e sobre o instante em que a gente percebe que talvez ainda possa ser outra pessoa.

Sinopse:

Após décadas sem publicar inéditos, Gabriel García Márquez nos deixou Em Agosto Nos Vemos, seu último romance, encontrado entre seus manuscritos. Nele, conhecemos Ana Magdalena Bach, uma mulher que, todos os anos, viaja sozinha para uma ilha tropical para visitar o túmulo da mãe. Durante essas visitas, ela se permite viver experiências que transformam sua relação com o corpo, o desejo e o sentido da própria vida.

Com a linguagem poética e a sensibilidade que consagraram o autor de Cem Anos de Solidão, este livro fala sobre o poder do tempo, da memória e da liberdade íntima, num tom de despedida e reinvenção.